Sábado, 6 de Agosto de 2011

MAHABHARATA ( parte 14 )

 

A Morte de Bakasura

Na cidade de Ekachakra, os Pandavas ficaram disfarçados de brâmanes, mendigavam sua comida nas ruas dos brâmanes e traziam o que conseguiam
para sua mãe, que sempre esperava por seu retorno ansiosa. Se eles não voltavam na hora, ela ficava preocupada, e temia que algum mal pudesse ter ocorrido a eles.

Kunti dividia toda comida que traziam em duas porções iguais. Uma metade era para Bhima. A outra metade era para os outros irmãos e a mãe. Bhima,
que nasceu do deus do vento, tinha muita força e um apetite voraz.

 Vrikodara, um dos nomes de Bhima, quer dizer estômago de lobo, e todos sabem que um lobo parece estar sempre faminto.

 Não importa o quanto coma, sua fome nunca é bem satisfeita. A fome insaciável de Bhima e a comida escassa que conseguiam em Ekachakra iam mal juntas.

 E a cada dia, ele emagrecia, o que causava muita tristeza à sua mãe e irmãos.

 Depois de algum tempo, Bhima conheceu um oleiro a quem ajudou trazer barro.

 O oleiro em retribuição lhe deu de presente um pote de barro grande que virou um objeto de brincadeira das crianças de rua.

Certo dia, quando os irmãos foram pedir esmolas, Bhima ficou atrás com sua mãe, pois ouviram lamentações em voz alta na casa do brâmane senhorio
deles.

 Com certeza, a pobre família sofria uma grande calamidade e Kunti entrou
na casa para saber a causa.

O brâmane e sua esposa mal conseguiam falar por causa do choro, no fim, ele disse à sua mulher:

 "Você é uma mulher desafortunada e tola, tem muito tempo e muitas vezes que eu quis sair desta cidade para sempre, e você nunca concordou.

 Você sempre dizia que nasceu e cresceu aqui, e ficaria aqui onde seus pais e parentes viveram e morreram.

 Como posso pensar em perder você, a companheira da minha vida, mãe amorosa, esposa que gerou meus filhos, além de ser tudo para mim? Não posso mandá-la para morrer enquanto vou ficar vivo.

 Esta menina nos foi dada por Deus em confiança para ser dada no devido tempo a um homem digno. É um crime sacrificá-la por ser um presente de Deus para a perpetuação da raça. Também é igualmente impossível permitir que este outro, nosso filho, seja morto. Como poderemos viver depois de enviar para a morte nosso único consolo da vida e nossa esperança futura? Se ele se for, quem vai fazer nossos rituais funerais e de nossos ancestrais? Ai de mim! Você não deu ouvidos às minhas palavras, e este é o fruto mortífero da sua perversidade.

 Se eu deixar minha vida, a menina e o menino vão morrer com certeza por falta dum protetor. O que devo fazer? É melhor que todos nós morramos juntos", e o brâmane caiu no soluço intenso.

A esposa respondeu: "Fui uma boa esposa para você, e cumpri meu dever por gerar uma filha e um filho para você. Você é capaz, e eu não, para criar e proteger nossos filhos.

 Do mesmo modo como as vísceras expostas são bicadas e apanhadas por aves de rapina, uma pobre viúva é presa fácil para pessoas malvadas e desonestas. Os cães brigam por um pano molhado no ghi, e ao puxarem para cá e para lá, rasgam em trapos enlameados. É melhor que eu seja dada ao rakshasa (espécie humana de demônio antropófago). A mulher que parte para o outro mundo enquanto seu esposo está vivo é realmente abençoada. Isso, como você sabe, é o que as escrituras afirmam. Por favor se despeça de mim. Cuide dos meus filhos. Fui feliz com você. Realizei muitas boas ações.

 Por minha devoção fiel a você, tenho certeza sobre o céu. A morte não
aterroriza aquela que foi uma boa esposa. Depois que eu for, case-se com outra esposa. Agrade-me com um bravo sorriso, abençoe-me, e me mande para o rakshasa".

Depois de ouvir essas palavras de sua esposa, o brâmane a abraçou com afeição, e tomado pelo amor e coragem dela, chorou como uma criança. Quando conseguiu se acalmar, respondeu: "Ó minha nobre amada, que palavras são essas? Será que posso suportar viver sem você? O dever principal dum marido é proteger sua esposa. Serei um pecador lamentável com certeza se viver depois de entregá-la ao rakshasa, e sacrificar o amor bem como o dever".

  A filha que ouvia essa conversação comovente, agora interveio aos soluços: "Por favor me ouçam, apesar de ser uma criança, e depois façam o que é
certo. Somente eu que vocês devem descartar para o rakshasa.

 Com o sacrifício duma alma, que sou eu, vocês salvarão as outras. Permitam que eu seja o pequeno barco que vai levá-los através desse rio de calamidade. Além disso, uma mulher sem guardião se torna a diversão de pessoas más que a arrastam para cá e para lá.

 É impossível que eu proteja dois órfãos sozinhos, e eles morrerão na miséria assim como um peixe numa lagoa seca.

 Se vocês dois morrerem, tanto eu como meu pequeno irmão morreremos rapidamente sem proteção neste mundo cruel.

 Se nossa família puder ser salva da destruição com minha morte apenas, que boa morte seria a minha! Mesmo se pensarem só no meu bem-estar, devem me mandar para o rakshasa".

Com essas palavras bravas da pobre menina, os pais a abraçaram com
ternura e choraram. Ao ver todos em lágrimas, o menino, não maior que um bebê, se levantou com os olhos brilhantes, e balbuciou: "Pai, não chore.

 Mãe, não chore. Irmã, não chore", e foi até cada um e se sentou no colo de cada um alternadamente.

Depois se levantou, pegou um pedaço de pau de lenha que brandiu de um lado para o outro, e disse com sua doce fala infantil: "Vou matar o rakshasa com este pau".

 A atitude do menino e sua fala fizeram eles sorrirem no meio de suas lágrimas, mas isso só aumentou seu grande pesar.

Kunti percebeu que era o momento para intervir, assim entrou e perguntou sobre a causa da tristeza deles, e se poderia fazer algo para ajudá-los.

O brâmane disse: "Mãe, é um sofrimento muito além da sua capacidade. Há uma caverna perto da cidade onde vive um rakshasa cruel e terrivelmente forte chamado Bakasura. Ele capturou esta cidade e o reino há treze anos. Desde então, ele mantém todos numa escravidão cruel.

  O kshatriya governador deste estado fugiu para a cidade de Vetrakiya e não pode nos proteger.

 Esse rakshasa costumava sair de sua caverna quando bem entendia e, louco de fome, matava e comia indiscriminadamente homens, mulheres e crianças desta cidade.

 Os cidadãos imploraram ao rakshasa para aceitar algum tipo de combinação em vez dessa matança promíscua. Eles imploraram: 'Não nos mate sem consideração só por capricho ou prazer. Uma vez por semana, nós vamos trazer para você bastante carne, arroz, coalhada e bebidas alcoólicas, e
várias outras guloseimas.

 Vamos entregar a você tudo isso numa carroça puxada por dois bois dirigidos por um ser humano que será tirado duma casa de cada vez.
Você pode comer tudo, o arroz com os bois e a pessoa, mas tem que parar com essa louca orgia de matança'.

 O rakshasa concordou com a proposta. A partir desse dia, esse forte rakshasa passou a proteger este reino de ataques estrangeiros e feras selvagens. Esse acordo acontece há muitos anos. Nunca se encontrou um herói para livrar o país dessa peste, pois o rakshasa derrotou e matou sem exceção todos os homens bravos que tentaram.

 Mãe, nosso soberano legítimo não pode nos proteger. Os cidadãos dum país, cujo rei é fraco, não devem se casar e ter filhos.

 Uma vida familiar digna, com cultura e felicidade doméstica, só é possível sob o governo dum rei bom e forte. Esposa, riqueza e outras coisas não estão a salvo, se não tiver um rei digno no governo dos cidadãos.

 E depois dum longo sofrimento com a visão da desgraça dos outros, chegou a nossa vez de mandar uma pessoa para o rakshasa. Não tenho recursos para comprar um substituto.

 Nenhum de nós pode suportar viver depois de mandar qualquer um de nós para a morte cruel, assim eu irei com minha família inteira até ele. Deixe esse glutão malvado devorar todos nós. Eu a atormentei com isso, mas você quis saber. Só Deus pode nos ajudar, mas perdemos a esperança até nisso".

As verdades políticas contidas na história de Ekachakra são sugestivas e dignas de nota. Kunti conversou com Bhima sobre o que aconteceu e voltou ao brâmane. Ela disse: "Meu bom homem, não se desespere. Deus é grande.
Eu tenho cinco filhos. Um deles vai levar a comida ao rakshasa".

  O brâmane pulou surpreso, mas balançou a cabeça em negativa e não quis aceitar o sacrifício do substituto. Kunti disse: "Ó brâmane, não tenha medo.

 Meu filho é dotado de poderes sobrenaturais derivados de mantras e vai matar o rakshasa com certeza, como eu mesma já vi várias vezes ele matar muitos outros rakshasas desses.

 Mas guarde em segredo, pois se for revelado, sua força pode ser reduzida a nada".

Kunti temia que a história pudesse se espalhar por toda parte, os homens de Duryodhana veriam a mão dos Pandavas, e achariam seu paradeiro.

 Bhima estava radiante de alegria e entusiasmo com o arranjo feito por Kunti.

  Os outros irmãos voltaram para casa com doações.

 Dharmaputra (Yudhisthira) viu a face de Bhimasena radiante de alegria na qual era uma estranha faz muito tempo e deduziu que ele resolveu alguma aventura perigosa e perguntou a Kunti que lhe contou tudo.

Yudhisthira disse: "O que é isso? Será que não é precipitação e imprudência? Com confiança na força de Bhima, dormimos sem preocupação ou temor. Não é com a força de Bhima e com essa confiança que pretendemos recuperar o reino que foi usurpado por nossos inimigos enganadores? Não foi pela força de Bhima que escapamos do palácio de cera? E você quer arriscar a vida de Bhima que é nossa proteção presente e esperança futura? Temo que suas muitas provações embotaram seu juízo"!

Kuntidevi respondeu: "Queridos filhos, nós vivemos felizes durante muitos anos na casa deste brâmane. Dever, além de ser a maior virtude do ser humano, é retribuir o benefício que desfrutou por fazer o bem na sua vez.
Conheço o heroísmo de Bhima e não tenho temores. Lembre quem nos carregou de Varanavata e quem matou o demônio Hidimba. É nosso dever servir esta família brâmane".

Os cidadãos vieram até a casa do brâmane com vários tipos de carnes, iguarias, potes de coalhada e bebidas alcoólicas tudo dentro duma carroça puxada por bois, Bhima subiu na carroça e foi para a caverna do rakshasa.

A carroça seguiu acompanhada por banda de música.

 Quando chegou no local de costume, os cidadãos voltaram a salvo, e deixaram Bhima sozinho na carroça. O local na frente do covil do rakshasa estava repleto de ossos, cabelo e chifres, e cheio de vermes e formigas. Bhima viu muitas mãos, pernas e cabeças mutiladas com que os pássaros de rapina faziam sua refeição. Bhima parou a carroça e começou a comer vorazmente toda a comida destinada ao rakshasa, e pensou consigo mesmo: "Tenho que comer toda a comida antes que seja esparramada na confusão da luta com o rakshasa.

 Além do mais, depois que eu matá-lo, estarei contaminado pelo contato com seu cadáver e não poderei comer a comida".

  O rakshasa cujo humor já estava afetado com tanta demora ficou enfurecido quando viu o que Bhima fazia.

 Bhima também viu o rakshasa e o desafiou para uma luta. O rakshasa com seu corpo enorme, bigode, barba e cabelos vermelhos, e uma boca que ia de uma orelha a outra, correu para cima de Bhima que apenas sorriu tranqüilo, esquivou-se dos punhos cerrados e continuou a comer de costas para o rakshasa.

 O rakshasa desferiu vários socos potentes nas costas do adversário tão
arrogante, mas Bhima nem se importou nem parou de comer. O rakshasa
arrancou uma árvore e atirou em Bhima, que ainda nem se virou para ele e apenas desviou o projétil com sua mão esquerda e continuou a comer com a direita.

 Só depois que acabou, até o último pote de coalhada, e lavou sua boca, que ele se levantou com um ar de satisfação e enfrentou o rakshasa.

     Um combate aterrador foi travado entre eles.

 Bhima brincou com o rakshasa, jogava no chão e levantava como bem entendia, como se fosse um mero boneco de pano. Finalmente, Bhima o jogou no chão, pôs seu joelho em suas costas e quebrou sua espinha.

 O rakshasa emitiu um terrível urro de dor e desespero, cuspiu sangue e morreu. Bhima arrastou a carcaça até os portões da cidade. Voltou para a casa do brâmane, tomou banho e contou à sua mãe a aventura do dia, para a grande alegria dela.

publicado por Lalanesha Dasa às 17:23

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.Para melhor compreender este épico histórico, o leitor terá que seguir esta sequência abaixo!!

. MAHABHARATA ( parte 14 )

. MAHABHARATA ( parte13 )

. MAHABHARATA ( parte 12 )

. MAHABHARATA ( parte 11 )

. MAHABHARATA ( parte 10)

. MAHABHARATA ( parte 9)

. MAHABHARATA ( parte 8)

. MAHABHARATA ( parte 7)

. MAHABHARATA ( parte 6)

. MAHABHARATA ( parte 5)

. MAHABHARATA ( parte 4)

. MAHABHARATA ( parte 3)

. MAHABHARATA ( parte 2)

. MAHABHARATA ( parte 1)