Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

MAHABHARATA ( parte13 )

O Palácio de Cera

A inveja de Duryodhana começou a crescer com a visão da força física de Bhima e a destreza de Arjuna.

 Karna e Shakuni se tornaram os conselheiros maliciosos de Duryodhana no planejamento de ardis astuciosos.

Quanto ao pobre Dhritarastra, ele era um homem sábio sem dúvida e
também amava os filhos de seu irmão, mas era fraco de espírito e louco de amor por seus próprios filhos.

 Por causa de seus filhos, a pior se tornava a melhor razão, e às vezes, ele seguia o caminho errado mesmo consciente.

Duryodhana tentou matar os Pandavas de várias formas. Foi pela ajuda secreta de Vidura, com desejo de salvar a família de cometer um grande
pecado, que os Pandavas escaparam vivos.

Uma ofensa imperdoável dos Pandavas na visão de Duryodhana era que
o povo da cidade os elogiava abertamente e declaravam uma e outra vez que
Yudhisthira era o único capaz para ser o rei.

Em suas reuniões, as pessoas conversavam e argumentavam:

"Dhritarastra nunca deveria ser rei pois nasceu cego. Não é certo que ele continue agora com o reino em suas mãos. Bhisma também não pode ser o rei, por ser devotado à verdade e ao seu voto, não pode ser um rei.

 Por isso, Yudhisthira é o único que deve ser coroado rei. Ele é o único que pode governar a dinastia Kuru e o reino com justiça". As pessoas falavam assim por toda parte.
Essas palavras eram como veneno para os ouvidos de Duryodhana, e faziam ele se retorcer e queimar de inveja.

Ele foi até Dhritarastra e reclamou amargurado com a fala do povo:
"Pai, os cidadãos balbuciam tolices irrelevantes. Eles nem respeitam pessoas
veneráveis como Bhisma e você. Eles dizem que Yudhisthira deve ser coroado rei imediatamente. Isso vai causar a nossa ruína. Você foi posto de lado por causa de sua cegueira, e seu irmão se tornou o rei. Se Yudhisthira deve suceder seu pai, como ficamos nós? Qual será a chance de nossa prole? Depois de Yudhisthira, o filho dele, o filho de seu filho e o filho seguinte serão os reis. Nós nos afundaremos em parentesco pobre, seremos dependentes deles até mesmo para comer.
Viver no inferno seria melhor que isso"!

Após ouvir essas palavras, Dhritarastra ponderou e disse: "O que você disse é verdade. Ainda assim, Yudhisthira não se desviará do caminho da virtude.

 Ele ama todos. Ele herdou realmente todas virtudes excelentes de seu pai falecido.

      As pessoas o louvam e vão apoiá-lo, e todos ministros de estado e
comandantes militares, a quem Pandu cativou com sua nobreza de caráter,

 vão abraçar sua causa.

 Quanto ao povo, eles idolatram os Pandavas. Não podemos nos opor a eles com qualquer chance de sucesso. Se agirmos com injustiça, os cidadãos vão se rebelar e vão nos matar ou nos exilar.

 Vamos nos cobrir apenas com ignomínia".

Duryodhana respondeu: "Seus temores não têm sentido. Bhisma no pior das hipóteses ficará neutro, enquanto Asvathama é fiel a mim, quer dizer que seu pai Drona e tio Kripa ficarão do nosso lado. Vidura não pode se opor a nós abertamente, mesmo por qualquer outro motivo, pois não tem poder.

 Mande os Pandavas imediatamente para Varanavata. Eu lhe digo a verdade solene que minha taça de sofrimento está cheia e não posso suportar mais. Perfura meu coração e me deixa sem dormir, e transforma minha vida num tormento. Depois de mandar os Pandavas para Varanavata vamos procurar fortalecer nosso lado".

Mais tarde, alguns políticos decidiram se juntar ao lado de Duryodhana e aconselhar o rei sobre o assunto. Kanika, ministro de Shakuni, era o líder deles, e disse: "Salve rei.

 Proteja-se contra os filhos de Pandu, pois sua bondade e influência são uma ameaça para você e os seus. Os Pandavas são filhos de seu irmão, quanto mais próximo o parentesco, mais perto e mortal o perigo. Eles são muito poderosos".

O ministro de Shakuni continuou: "Não fique com raiva de mim se eu disser que um rei tem que ser poderoso em ação tanto quanto em nome, pois ninguém acredita no poder que nunca é exibido.

Assuntos de estado devem ser mantidos em segredo, e o aviso mais rápido para o público dum plano sensato é sua execução. Além do mais, males devem ser erradicados prontamente, pois um espinho que foi deixado dentro do corpo pode causar uma ferida infeccionada.
Inimigos poderosos devem ser destruídos, mesmo um inimigo fraco não deve ser desprezado, pois uma pequena fagulha, se negligenciada, pode causar um incêndio florestal. Um inimigo poderoso tem que ser destruído com estratégia e é tolice ter pena dele. Ó rei, proteja-se contra os filhos de Pandu. Eles são muito poderosos".

Duryodhana falou para Dhritarastra sobre seu sucesso em assegurar
participantes leais:

 "Eu comprei a boa vontade dos assessores reais com presentes de riqueza e honra. Eu conquistei seus ministros para a nossa causa.
Se você mandar os Pandavas para Varanavata com sagacidade, a cidade e todo o reino ficarão do nosso lado. Eles não terão mais nenhum amigo de sobra aqui.
Depois que o reino for nosso, eles não terão mais poder de dano, e talvez seja até possível deixarmos que eles voltem".

Quando vários disseram o que ele mesmo queria acreditar, a mente de Dhritarastra ficou abalada e ele concordou com os conselheiros de seu filho.
É o que faltava para a conspiração ter efeito.

Os ministros passaram a elogiar Varanavata na presença dos Pandavas e falavam sobre a realização dum grande festival em homenagem a Shiva
que aconteceria lá com toda pompa e esplendor.

Os Pandavas sem suspeitar foram persuadidos com facilidade, principalmente quando Dhritarastra também disse a eles em tom de muita afeição que deveriam ir com certeza e testemunharem as festividades, não apenas porque mereciam ir mas também porque as pessoas de lá estavam ansiosas em dar-lhes as boas vindas.

Os Pandavas se despediram de Bhisma e outros parentes e foram para
Varanavata. Duryodhana ficou exaltado. Ele conspirou com Karna e Shakuni para matar Kunti e seus filhos em Varanavata. Eles mandaram Purochana, um ministro, para lá e lhe deram instruções secretas que ele se comprometeu a executar fielmente.

Antes dos Pandavas partirem para Varanavata, Purochana, fiel às suas ordens, adiantou-se bem até o local e organizou a construção dum belo
palácio para a recepção deles.

 Materiais combustíveis como juta, goma-laca, ghi, óleo e gordura foram usados na construção do palácio.

 O material de emboço das paredes também era inflamável. Com astúcia, ele preencheu várias partes do prédio com coisas secas que podiam incendiar facilmente, e arrumou os assentos e camas nos locais mais combustíveis.

Todas as conveniências foram providenciadas para os Pandavas terem sua estadia na cidade sem temor, até a construção do palácio. Quando os Pandavas estivessem na casa de cera, a idéia era atear fogo à noite quando estivessem em sono profundo.

O amor e atenção ostensivos com que os Pandavas seriam recebidos e
tratados eliminaria toda suspeita e o incêndio seria considerado um caso

 triste de puro acidente.

 Ninguém sonharia em culpar os Kauravas.

A Fuga dos Pandavas

Depois das despedidas formais dos mais velhos e de abraçar os amigos, os Pandavas partiram para Varanavata. Os cidadãos os acompanharam durante parte do caminho e voltaram para a cidade sem querer.

 Vidura evidentemente avisou Yudhisthira com palavras inteligíveis só para o
príncipe:

"Escapa do perigo só a pessoa que previne as intenções dum inimigo astuto. Existem armas mais afiadas que as feitas de aço.

 E a pessoa sábia que escaparia da destruição deve saber os meios para se defender dela. A conflagração que devasta uma floresta não pode ferir um rato que se abriga num buraco ou um porco-espinho que cavouca a terra para se esconder. A pessoa inteligente sabe seu rumo por olhar as estrelas".

Apesar de iniciarem sua jornada na alegria dum dia ensolarado, agora prosseguiam sob uma nuvem escura de tristeza e ansiedade.

O povo de Varanavata ficou muito feliz em saber sobre a chegada dos Pandavas em sua cidade e lhes deram as boas vindas.

Após uma breve estadia em outras casas enquanto o palácio feito
especialmente para eles ficava pronto, mudaram sob os cuidados de Purochana.

O palácio foi chamado de "Shivam", que significa prosperidade, numa terrível ironia para a armadilha mortal.

 Yudhisthira examinou todo o local minuciosamente sempre com o aviso de Vidura na mente, e percebeu que o prédio foi sem sombra de dúvida construído com material combustível.

Yudhisthira disse a Bhima:

 "Apesar de sabermos que o palácio é uma armadilha mortal, não podemos deixar que Purochana desconfie que conhecemos sua conspiração. Vamos sair fora no momento certo, a fuga será muito difícil se dermos chance a qualquer suspeita".

Assim ficaram naquela casa com muito cuidado para não despertar nenhuma suspeita. Nesse meio tempo, Vidura mandou um mineiro especialista que se
encontrou com eles em segredo e disse: "Minha palavra de passe é o aviso secreto que Vidura lhes deu. Fui mandado para ajudá-los a se protegerem".

Isso, para indicar a Yudhisthira, e somente a ele, sobre o plano terrível de Duryodhana e como escapar do perigo. Yudhisthira disse que entendeu
a intenção de Vidura e mais tarde comunicou a Kuntidevi.

A partir daí, o mineiro trabalhou em segredo durante vários dias, sem o conhecimento de Purochana, e completou uma saída subterrânea da casa de
cera bem em baixo e através das paredes e vala, que corria em torno do
palácio.

Purochana tinha seus aposentos no portal do palácio. Os Pandavas mantinham a vigília armada noturna, e durante o dia, costumavam ir caçar na floresta, por prazer para as aparências mas na verdade para se familiarizarem com os caminhos da floresta.

Como já foi dito, eles mantiveram com muito cuidado seu conhecimento sobre a malvada conspiração contra suas vidas. Por outro lado, Purochana, ansioso em acalmar toda suspeita e fazer o incêndio criminoso parecer um acidente, esperou um ano inteiro antes de levar a cabo o plano malévolo.

Finalmente, Purochana achou que tinha esperado o suficiente. E o atento Yudhisthira, percebeu que o momento fatídico havia chegado, chamou seus
irmãos e disse a eles que agora ou nunca era a hora de escaparem.

Kuntidevi organizou um banquete suntuoso para o séqüito naquele dia.

 Sua idéia era acalmá-los para um sono bem alimentado durante a noite.

À meia-noite, Bhima ateou fogo em vários lugares do palácio.
Kuntidevi e os irmãos Pandavas correram pela passagem subterrânea e apalpavam seu caminho através da escuridão. Enquanto isso, houve um incêndio estrondoso que consumiu todo o palácio, e uma multidão crescia com rapidez por toda volta, com os cidadãos apavorados em alta lamentação e desespero.

Alguns se apressavam em tentativas fúteis de extinguir a conflagração, e todos se juntaram em uníssono:

 "Ai de mim! Ai de mim! Isso é com certeza obra de Duryodhana, e ele matou os Pandavas imaculados"!

O palácio foi reduzido a cinzas. A residência de Purochana foi envolvida nas chamas antes que pudesse escapar, e ele foi vítima sem piedade de seu próprio plano malévolo.

O povo de Varanavata mandou a seguinte mensagem a Hastinapura:

 "O palácio onde os Pandavas moravam sofreu um incêndio e ninguém escapou com vida".

Vyasa descreveu belamente o estado mental de Dhritarastra:

 "Do mesmo modo como a água de uma piscina profunda é fria no fundo e quente na superfície, assim estava o coração de Dhritarastra ao mesmo tempo quente de alegria e gélido de tristeza".

Dhritarastra e seus filhos tiraram suas vestes reais em sinal de pesar pelos Pandavas que achavam terem sido consumidos pelo fogo. Eles se vestiram com roupas simples como fazem os parentes em luto e foram para o rio a fim de executarem os rituais funerais apropriados.

Nenhum comportamento para exibição de coração partido foi omitido.
Notou-se que Vidura não estava tão triste como os outros, e isso foi atribuído a seu caráter filosófico. Mas o motivo verdadeiro, ele sabia que os Pandavas tinham escapado com segurança.

Quando parecia triste, ele de fato seguia a exaustiva jornada dos Pandavas em sua mente. Ao ver Bhisma afundado em tristeza, Vidura o animou em
segredo por revelar a história da escapada bem sucedida deles.

Bhima viu que sua mãe e irmãos estavam exaustos por causa das vigílias noturnas bem como pelo medo e ansiedade.

 Assim ele carregou sua mãe nos ombros, pôs Nakula e Sahadeva nos quadris e segurou Yudhisthira e Arjuna com suas mãos.

Com essa carga pesada, ele andava a passos largos como um elefante altivo que abria seu caminho através da floresta e punha de lado os arbustos e
árvores que obstruíam o caminho.

Quando chegaram no Ganges, havia um barco pronto para eles com um
barqueiro que sabia o segredo. Eles atravessaram o rio na escuridão e entraram na floresta espessa, assim prosseguiram durante a escuridão da noite que os envolvia como uma mortalha e num silêncio quebrado horrivelmente pelos alaridos assustadores de animais selvagens.

Por último, esgotados pela fadiga, eles se sentaram sem agüentar mais as dores da sede e sem suportar a inércia da extrema fadiga. Kuntidevi disse: "Não me importo se os filhos de Dhritarastra estiverem aqui para me
capturar, mas preciso estirar minhas pernas".

 Ela se deitou então e caiu em sono profundo.

Bhima forçou seu caminho pela floresta entrelaçada à procura de água na escuridão. Quando encontrou uma lagoa, ele molhou sua roupa, fez copos
com folhas de lótus e trouxe água para sua mãe e irmãos que morriam de sede.

Então, enquanto os outros dormiam num esquecimento compassivo de sua aflição, Bhima permaneceu desperto sozinho absorto em reflexão profunda:
"Por que os malvados Dhritarastra e Duryodhana tentam nos ferir desse jeito"? Por ser impecável, Bhima não conseguia entender o surgimento da perversidade nos outros, e ficou muito triste.

Os Pandavas continuaram sua marcha onde sofreram muitas dificuldades e passaram por vários perigos. Durante parte do caminho, carregavam sua mãe para melhorar a velocidade. Às vezes, cansados além da resignação heróica, paravam e descansavam.

 Às vezes, cheios de vida e com a gloriosa força da juventude, brincavam de corrida entre si.

Eles se encontraram com Bhagavan Vyasa no caminho. Todos lhe prestaram reverências e receberam encorajamento e conselho sábio dele.

Quando Kunti lhe contou sobre o pesar que caiu sobre eles, Vyasa a consolou com essas palavras:

 "Nenhuma pessoa virtuosa é forte o suficiente para viver em virtude o tempo todo, nem qualquer pessoa pecadora é má o suficiente para viver num lodaçal de pecado. A vida é um tecido entrelaçado e não existe ninguém no mundo que não tenha feito tanto o bem como o mal.

Cada um e todos têm que suportar as conseqüências de suas ações. Não se renda à tristeza".

Assim, eles se vestiram com roupas de brâmanes, como Vyasa aconselhou, e foram para a cidade de Ekachakra onde permaneceram na casa dum
brâmane à espera de dias melhores.

publicado por Lalanesha Dasa às 00:59

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.Para melhor compreender este épico histórico, o leitor terá que seguir esta sequência abaixo!!

. MAHABHARATA ( parte 14 )

. MAHABHARATA ( parte13 )

. MAHABHARATA ( parte 12 )

. MAHABHARATA ( parte 11 )

. MAHABHARATA ( parte 10)

. MAHABHARATA ( parte 9)

. MAHABHARATA ( parte 8)

. MAHABHARATA ( parte 7)

. MAHABHARATA ( parte 6)

. MAHABHARATA ( parte 5)

. MAHABHARATA ( parte 4)

. MAHABHARATA ( parte 3)

. MAHABHARATA ( parte 2)

. MAHABHARATA ( parte 1)