Sábado, 6 de Agosto de 2011

MAHABHARATA ( parte 14 )

 

A Morte de Bakasura

Na cidade de Ekachakra, os Pandavas ficaram disfarçados de brâmanes, mendigavam sua comida nas ruas dos brâmanes e traziam o que conseguiam
para sua mãe, que sempre esperava por seu retorno ansiosa. Se eles não voltavam na hora, ela ficava preocupada, e temia que algum mal pudesse ter ocorrido a eles.

Kunti dividia toda comida que traziam em duas porções iguais. Uma metade era para Bhima. A outra metade era para os outros irmãos e a mãe. Bhima,
que nasceu do deus do vento, tinha muita força e um apetite voraz.

 Vrikodara, um dos nomes de Bhima, quer dizer estômago de lobo, e todos sabem que um lobo parece estar sempre faminto.

 Não importa o quanto coma, sua fome nunca é bem satisfeita. A fome insaciável de Bhima e a comida escassa que conseguiam em Ekachakra iam mal juntas.

 E a cada dia, ele emagrecia, o que causava muita tristeza à sua mãe e irmãos.

 Depois de algum tempo, Bhima conheceu um oleiro a quem ajudou trazer barro.

 O oleiro em retribuição lhe deu de presente um pote de barro grande que virou um objeto de brincadeira das crianças de rua.

Certo dia, quando os irmãos foram pedir esmolas, Bhima ficou atrás com sua mãe, pois ouviram lamentações em voz alta na casa do brâmane senhorio
deles.

 Com certeza, a pobre família sofria uma grande calamidade e Kunti entrou
na casa para saber a causa.

O brâmane e sua esposa mal conseguiam falar por causa do choro, no fim, ele disse à sua mulher:

 "Você é uma mulher desafortunada e tola, tem muito tempo e muitas vezes que eu quis sair desta cidade para sempre, e você nunca concordou.

 Você sempre dizia que nasceu e cresceu aqui, e ficaria aqui onde seus pais e parentes viveram e morreram.

 Como posso pensar em perder você, a companheira da minha vida, mãe amorosa, esposa que gerou meus filhos, além de ser tudo para mim? Não posso mandá-la para morrer enquanto vou ficar vivo.

 Esta menina nos foi dada por Deus em confiança para ser dada no devido tempo a um homem digno. É um crime sacrificá-la por ser um presente de Deus para a perpetuação da raça. Também é igualmente impossível permitir que este outro, nosso filho, seja morto. Como poderemos viver depois de enviar para a morte nosso único consolo da vida e nossa esperança futura? Se ele se for, quem vai fazer nossos rituais funerais e de nossos ancestrais? Ai de mim! Você não deu ouvidos às minhas palavras, e este é o fruto mortífero da sua perversidade.

 Se eu deixar minha vida, a menina e o menino vão morrer com certeza por falta dum protetor. O que devo fazer? É melhor que todos nós morramos juntos", e o brâmane caiu no soluço intenso.

A esposa respondeu: "Fui uma boa esposa para você, e cumpri meu dever por gerar uma filha e um filho para você. Você é capaz, e eu não, para criar e proteger nossos filhos.

 Do mesmo modo como as vísceras expostas são bicadas e apanhadas por aves de rapina, uma pobre viúva é presa fácil para pessoas malvadas e desonestas. Os cães brigam por um pano molhado no ghi, e ao puxarem para cá e para lá, rasgam em trapos enlameados. É melhor que eu seja dada ao rakshasa (espécie humana de demônio antropófago). A mulher que parte para o outro mundo enquanto seu esposo está vivo é realmente abençoada. Isso, como você sabe, é o que as escrituras afirmam. Por favor se despeça de mim. Cuide dos meus filhos. Fui feliz com você. Realizei muitas boas ações.

 Por minha devoção fiel a você, tenho certeza sobre o céu. A morte não
aterroriza aquela que foi uma boa esposa. Depois que eu for, case-se com outra esposa. Agrade-me com um bravo sorriso, abençoe-me, e me mande para o rakshasa".

Depois de ouvir essas palavras de sua esposa, o brâmane a abraçou com afeição, e tomado pelo amor e coragem dela, chorou como uma criança. Quando conseguiu se acalmar, respondeu: "Ó minha nobre amada, que palavras são essas? Será que posso suportar viver sem você? O dever principal dum marido é proteger sua esposa. Serei um pecador lamentável com certeza se viver depois de entregá-la ao rakshasa, e sacrificar o amor bem como o dever".

  A filha que ouvia essa conversação comovente, agora interveio aos soluços: "Por favor me ouçam, apesar de ser uma criança, e depois façam o que é
certo. Somente eu que vocês devem descartar para o rakshasa.

 Com o sacrifício duma alma, que sou eu, vocês salvarão as outras. Permitam que eu seja o pequeno barco que vai levá-los através desse rio de calamidade. Além disso, uma mulher sem guardião se torna a diversão de pessoas más que a arrastam para cá e para lá.

 É impossível que eu proteja dois órfãos sozinhos, e eles morrerão na miséria assim como um peixe numa lagoa seca.

 Se vocês dois morrerem, tanto eu como meu pequeno irmão morreremos rapidamente sem proteção neste mundo cruel.

 Se nossa família puder ser salva da destruição com minha morte apenas, que boa morte seria a minha! Mesmo se pensarem só no meu bem-estar, devem me mandar para o rakshasa".

Com essas palavras bravas da pobre menina, os pais a abraçaram com
ternura e choraram. Ao ver todos em lágrimas, o menino, não maior que um bebê, se levantou com os olhos brilhantes, e balbuciou: "Pai, não chore.

 Mãe, não chore. Irmã, não chore", e foi até cada um e se sentou no colo de cada um alternadamente.

Depois se levantou, pegou um pedaço de pau de lenha que brandiu de um lado para o outro, e disse com sua doce fala infantil: "Vou matar o rakshasa com este pau".

 A atitude do menino e sua fala fizeram eles sorrirem no meio de suas lágrimas, mas isso só aumentou seu grande pesar.

Kunti percebeu que era o momento para intervir, assim entrou e perguntou sobre a causa da tristeza deles, e se poderia fazer algo para ajudá-los.

O brâmane disse: "Mãe, é um sofrimento muito além da sua capacidade. Há uma caverna perto da cidade onde vive um rakshasa cruel e terrivelmente forte chamado Bakasura. Ele capturou esta cidade e o reino há treze anos. Desde então, ele mantém todos numa escravidão cruel.

  O kshatriya governador deste estado fugiu para a cidade de Vetrakiya e não pode nos proteger.

 Esse rakshasa costumava sair de sua caverna quando bem entendia e, louco de fome, matava e comia indiscriminadamente homens, mulheres e crianças desta cidade.

 Os cidadãos imploraram ao rakshasa para aceitar algum tipo de combinação em vez dessa matança promíscua. Eles imploraram: 'Não nos mate sem consideração só por capricho ou prazer. Uma vez por semana, nós vamos trazer para você bastante carne, arroz, coalhada e bebidas alcoólicas, e
várias outras guloseimas.

 Vamos entregar a você tudo isso numa carroça puxada por dois bois dirigidos por um ser humano que será tirado duma casa de cada vez.
Você pode comer tudo, o arroz com os bois e a pessoa, mas tem que parar com essa louca orgia de matança'.

 O rakshasa concordou com a proposta. A partir desse dia, esse forte rakshasa passou a proteger este reino de ataques estrangeiros e feras selvagens. Esse acordo acontece há muitos anos. Nunca se encontrou um herói para livrar o país dessa peste, pois o rakshasa derrotou e matou sem exceção todos os homens bravos que tentaram.

 Mãe, nosso soberano legítimo não pode nos proteger. Os cidadãos dum país, cujo rei é fraco, não devem se casar e ter filhos.

 Uma vida familiar digna, com cultura e felicidade doméstica, só é possível sob o governo dum rei bom e forte. Esposa, riqueza e outras coisas não estão a salvo, se não tiver um rei digno no governo dos cidadãos.

 E depois dum longo sofrimento com a visão da desgraça dos outros, chegou a nossa vez de mandar uma pessoa para o rakshasa. Não tenho recursos para comprar um substituto.

 Nenhum de nós pode suportar viver depois de mandar qualquer um de nós para a morte cruel, assim eu irei com minha família inteira até ele. Deixe esse glutão malvado devorar todos nós. Eu a atormentei com isso, mas você quis saber. Só Deus pode nos ajudar, mas perdemos a esperança até nisso".

As verdades políticas contidas na história de Ekachakra são sugestivas e dignas de nota. Kunti conversou com Bhima sobre o que aconteceu e voltou ao brâmane. Ela disse: "Meu bom homem, não se desespere. Deus é grande.
Eu tenho cinco filhos. Um deles vai levar a comida ao rakshasa".

  O brâmane pulou surpreso, mas balançou a cabeça em negativa e não quis aceitar o sacrifício do substituto. Kunti disse: "Ó brâmane, não tenha medo.

 Meu filho é dotado de poderes sobrenaturais derivados de mantras e vai matar o rakshasa com certeza, como eu mesma já vi várias vezes ele matar muitos outros rakshasas desses.

 Mas guarde em segredo, pois se for revelado, sua força pode ser reduzida a nada".

Kunti temia que a história pudesse se espalhar por toda parte, os homens de Duryodhana veriam a mão dos Pandavas, e achariam seu paradeiro.

 Bhima estava radiante de alegria e entusiasmo com o arranjo feito por Kunti.

  Os outros irmãos voltaram para casa com doações.

 Dharmaputra (Yudhisthira) viu a face de Bhimasena radiante de alegria na qual era uma estranha faz muito tempo e deduziu que ele resolveu alguma aventura perigosa e perguntou a Kunti que lhe contou tudo.

Yudhisthira disse: "O que é isso? Será que não é precipitação e imprudência? Com confiança na força de Bhima, dormimos sem preocupação ou temor. Não é com a força de Bhima e com essa confiança que pretendemos recuperar o reino que foi usurpado por nossos inimigos enganadores? Não foi pela força de Bhima que escapamos do palácio de cera? E você quer arriscar a vida de Bhima que é nossa proteção presente e esperança futura? Temo que suas muitas provações embotaram seu juízo"!

Kuntidevi respondeu: "Queridos filhos, nós vivemos felizes durante muitos anos na casa deste brâmane. Dever, além de ser a maior virtude do ser humano, é retribuir o benefício que desfrutou por fazer o bem na sua vez.
Conheço o heroísmo de Bhima e não tenho temores. Lembre quem nos carregou de Varanavata e quem matou o demônio Hidimba. É nosso dever servir esta família brâmane".

Os cidadãos vieram até a casa do brâmane com vários tipos de carnes, iguarias, potes de coalhada e bebidas alcoólicas tudo dentro duma carroça puxada por bois, Bhima subiu na carroça e foi para a caverna do rakshasa.

A carroça seguiu acompanhada por banda de música.

 Quando chegou no local de costume, os cidadãos voltaram a salvo, e deixaram Bhima sozinho na carroça. O local na frente do covil do rakshasa estava repleto de ossos, cabelo e chifres, e cheio de vermes e formigas. Bhima viu muitas mãos, pernas e cabeças mutiladas com que os pássaros de rapina faziam sua refeição. Bhima parou a carroça e começou a comer vorazmente toda a comida destinada ao rakshasa, e pensou consigo mesmo: "Tenho que comer toda a comida antes que seja esparramada na confusão da luta com o rakshasa.

 Além do mais, depois que eu matá-lo, estarei contaminado pelo contato com seu cadáver e não poderei comer a comida".

  O rakshasa cujo humor já estava afetado com tanta demora ficou enfurecido quando viu o que Bhima fazia.

 Bhima também viu o rakshasa e o desafiou para uma luta. O rakshasa com seu corpo enorme, bigode, barba e cabelos vermelhos, e uma boca que ia de uma orelha a outra, correu para cima de Bhima que apenas sorriu tranqüilo, esquivou-se dos punhos cerrados e continuou a comer de costas para o rakshasa.

 O rakshasa desferiu vários socos potentes nas costas do adversário tão
arrogante, mas Bhima nem se importou nem parou de comer. O rakshasa
arrancou uma árvore e atirou em Bhima, que ainda nem se virou para ele e apenas desviou o projétil com sua mão esquerda e continuou a comer com a direita.

 Só depois que acabou, até o último pote de coalhada, e lavou sua boca, que ele se levantou com um ar de satisfação e enfrentou o rakshasa.

     Um combate aterrador foi travado entre eles.

 Bhima brincou com o rakshasa, jogava no chão e levantava como bem entendia, como se fosse um mero boneco de pano. Finalmente, Bhima o jogou no chão, pôs seu joelho em suas costas e quebrou sua espinha.

 O rakshasa emitiu um terrível urro de dor e desespero, cuspiu sangue e morreu. Bhima arrastou a carcaça até os portões da cidade. Voltou para a casa do brâmane, tomou banho e contou à sua mãe a aventura do dia, para a grande alegria dela.

publicado por Lalanesha Dasa às 17:23

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Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

MAHABHARATA ( parte13 )

O Palácio de Cera

A inveja de Duryodhana começou a crescer com a visão da força física de Bhima e a destreza de Arjuna.

 Karna e Shakuni se tornaram os conselheiros maliciosos de Duryodhana no planejamento de ardis astuciosos.

Quanto ao pobre Dhritarastra, ele era um homem sábio sem dúvida e
também amava os filhos de seu irmão, mas era fraco de espírito e louco de amor por seus próprios filhos.

 Por causa de seus filhos, a pior se tornava a melhor razão, e às vezes, ele seguia o caminho errado mesmo consciente.

Duryodhana tentou matar os Pandavas de várias formas. Foi pela ajuda secreta de Vidura, com desejo de salvar a família de cometer um grande
pecado, que os Pandavas escaparam vivos.

Uma ofensa imperdoável dos Pandavas na visão de Duryodhana era que
o povo da cidade os elogiava abertamente e declaravam uma e outra vez que
Yudhisthira era o único capaz para ser o rei.

Em suas reuniões, as pessoas conversavam e argumentavam:

"Dhritarastra nunca deveria ser rei pois nasceu cego. Não é certo que ele continue agora com o reino em suas mãos. Bhisma também não pode ser o rei, por ser devotado à verdade e ao seu voto, não pode ser um rei.

 Por isso, Yudhisthira é o único que deve ser coroado rei. Ele é o único que pode governar a dinastia Kuru e o reino com justiça". As pessoas falavam assim por toda parte.
Essas palavras eram como veneno para os ouvidos de Duryodhana, e faziam ele se retorcer e queimar de inveja.

Ele foi até Dhritarastra e reclamou amargurado com a fala do povo:
"Pai, os cidadãos balbuciam tolices irrelevantes. Eles nem respeitam pessoas
veneráveis como Bhisma e você. Eles dizem que Yudhisthira deve ser coroado rei imediatamente. Isso vai causar a nossa ruína. Você foi posto de lado por causa de sua cegueira, e seu irmão se tornou o rei. Se Yudhisthira deve suceder seu pai, como ficamos nós? Qual será a chance de nossa prole? Depois de Yudhisthira, o filho dele, o filho de seu filho e o filho seguinte serão os reis. Nós nos afundaremos em parentesco pobre, seremos dependentes deles até mesmo para comer.
Viver no inferno seria melhor que isso"!

Após ouvir essas palavras, Dhritarastra ponderou e disse: "O que você disse é verdade. Ainda assim, Yudhisthira não se desviará do caminho da virtude.

 Ele ama todos. Ele herdou realmente todas virtudes excelentes de seu pai falecido.

      As pessoas o louvam e vão apoiá-lo, e todos ministros de estado e
comandantes militares, a quem Pandu cativou com sua nobreza de caráter,

 vão abraçar sua causa.

 Quanto ao povo, eles idolatram os Pandavas. Não podemos nos opor a eles com qualquer chance de sucesso. Se agirmos com injustiça, os cidadãos vão se rebelar e vão nos matar ou nos exilar.

 Vamos nos cobrir apenas com ignomínia".

Duryodhana respondeu: "Seus temores não têm sentido. Bhisma no pior das hipóteses ficará neutro, enquanto Asvathama é fiel a mim, quer dizer que seu pai Drona e tio Kripa ficarão do nosso lado. Vidura não pode se opor a nós abertamente, mesmo por qualquer outro motivo, pois não tem poder.

 Mande os Pandavas imediatamente para Varanavata. Eu lhe digo a verdade solene que minha taça de sofrimento está cheia e não posso suportar mais. Perfura meu coração e me deixa sem dormir, e transforma minha vida num tormento. Depois de mandar os Pandavas para Varanavata vamos procurar fortalecer nosso lado".

Mais tarde, alguns políticos decidiram se juntar ao lado de Duryodhana e aconselhar o rei sobre o assunto. Kanika, ministro de Shakuni, era o líder deles, e disse: "Salve rei.

 Proteja-se contra os filhos de Pandu, pois sua bondade e influência são uma ameaça para você e os seus. Os Pandavas são filhos de seu irmão, quanto mais próximo o parentesco, mais perto e mortal o perigo. Eles são muito poderosos".

O ministro de Shakuni continuou: "Não fique com raiva de mim se eu disser que um rei tem que ser poderoso em ação tanto quanto em nome, pois ninguém acredita no poder que nunca é exibido.

Assuntos de estado devem ser mantidos em segredo, e o aviso mais rápido para o público dum plano sensato é sua execução. Além do mais, males devem ser erradicados prontamente, pois um espinho que foi deixado dentro do corpo pode causar uma ferida infeccionada.
Inimigos poderosos devem ser destruídos, mesmo um inimigo fraco não deve ser desprezado, pois uma pequena fagulha, se negligenciada, pode causar um incêndio florestal. Um inimigo poderoso tem que ser destruído com estratégia e é tolice ter pena dele. Ó rei, proteja-se contra os filhos de Pandu. Eles são muito poderosos".

Duryodhana falou para Dhritarastra sobre seu sucesso em assegurar
participantes leais:

 "Eu comprei a boa vontade dos assessores reais com presentes de riqueza e honra. Eu conquistei seus ministros para a nossa causa.
Se você mandar os Pandavas para Varanavata com sagacidade, a cidade e todo o reino ficarão do nosso lado. Eles não terão mais nenhum amigo de sobra aqui.
Depois que o reino for nosso, eles não terão mais poder de dano, e talvez seja até possível deixarmos que eles voltem".

Quando vários disseram o que ele mesmo queria acreditar, a mente de Dhritarastra ficou abalada e ele concordou com os conselheiros de seu filho.
É o que faltava para a conspiração ter efeito.

Os ministros passaram a elogiar Varanavata na presença dos Pandavas e falavam sobre a realização dum grande festival em homenagem a Shiva
que aconteceria lá com toda pompa e esplendor.

Os Pandavas sem suspeitar foram persuadidos com facilidade, principalmente quando Dhritarastra também disse a eles em tom de muita afeição que deveriam ir com certeza e testemunharem as festividades, não apenas porque mereciam ir mas também porque as pessoas de lá estavam ansiosas em dar-lhes as boas vindas.

Os Pandavas se despediram de Bhisma e outros parentes e foram para
Varanavata. Duryodhana ficou exaltado. Ele conspirou com Karna e Shakuni para matar Kunti e seus filhos em Varanavata. Eles mandaram Purochana, um ministro, para lá e lhe deram instruções secretas que ele se comprometeu a executar fielmente.

Antes dos Pandavas partirem para Varanavata, Purochana, fiel às suas ordens, adiantou-se bem até o local e organizou a construção dum belo
palácio para a recepção deles.

 Materiais combustíveis como juta, goma-laca, ghi, óleo e gordura foram usados na construção do palácio.

 O material de emboço das paredes também era inflamável. Com astúcia, ele preencheu várias partes do prédio com coisas secas que podiam incendiar facilmente, e arrumou os assentos e camas nos locais mais combustíveis.

Todas as conveniências foram providenciadas para os Pandavas terem sua estadia na cidade sem temor, até a construção do palácio. Quando os Pandavas estivessem na casa de cera, a idéia era atear fogo à noite quando estivessem em sono profundo.

O amor e atenção ostensivos com que os Pandavas seriam recebidos e
tratados eliminaria toda suspeita e o incêndio seria considerado um caso

 triste de puro acidente.

 Ninguém sonharia em culpar os Kauravas.

A Fuga dos Pandavas

Depois das despedidas formais dos mais velhos e de abraçar os amigos, os Pandavas partiram para Varanavata. Os cidadãos os acompanharam durante parte do caminho e voltaram para a cidade sem querer.

 Vidura evidentemente avisou Yudhisthira com palavras inteligíveis só para o
príncipe:

"Escapa do perigo só a pessoa que previne as intenções dum inimigo astuto. Existem armas mais afiadas que as feitas de aço.

 E a pessoa sábia que escaparia da destruição deve saber os meios para se defender dela. A conflagração que devasta uma floresta não pode ferir um rato que se abriga num buraco ou um porco-espinho que cavouca a terra para se esconder. A pessoa inteligente sabe seu rumo por olhar as estrelas".

Apesar de iniciarem sua jornada na alegria dum dia ensolarado, agora prosseguiam sob uma nuvem escura de tristeza e ansiedade.

O povo de Varanavata ficou muito feliz em saber sobre a chegada dos Pandavas em sua cidade e lhes deram as boas vindas.

Após uma breve estadia em outras casas enquanto o palácio feito
especialmente para eles ficava pronto, mudaram sob os cuidados de Purochana.

O palácio foi chamado de "Shivam", que significa prosperidade, numa terrível ironia para a armadilha mortal.

 Yudhisthira examinou todo o local minuciosamente sempre com o aviso de Vidura na mente, e percebeu que o prédio foi sem sombra de dúvida construído com material combustível.

Yudhisthira disse a Bhima:

 "Apesar de sabermos que o palácio é uma armadilha mortal, não podemos deixar que Purochana desconfie que conhecemos sua conspiração. Vamos sair fora no momento certo, a fuga será muito difícil se dermos chance a qualquer suspeita".

Assim ficaram naquela casa com muito cuidado para não despertar nenhuma suspeita. Nesse meio tempo, Vidura mandou um mineiro especialista que se
encontrou com eles em segredo e disse: "Minha palavra de passe é o aviso secreto que Vidura lhes deu. Fui mandado para ajudá-los a se protegerem".

Isso, para indicar a Yudhisthira, e somente a ele, sobre o plano terrível de Duryodhana e como escapar do perigo. Yudhisthira disse que entendeu
a intenção de Vidura e mais tarde comunicou a Kuntidevi.

A partir daí, o mineiro trabalhou em segredo durante vários dias, sem o conhecimento de Purochana, e completou uma saída subterrânea da casa de
cera bem em baixo e através das paredes e vala, que corria em torno do
palácio.

Purochana tinha seus aposentos no portal do palácio. Os Pandavas mantinham a vigília armada noturna, e durante o dia, costumavam ir caçar na floresta, por prazer para as aparências mas na verdade para se familiarizarem com os caminhos da floresta.

Como já foi dito, eles mantiveram com muito cuidado seu conhecimento sobre a malvada conspiração contra suas vidas. Por outro lado, Purochana, ansioso em acalmar toda suspeita e fazer o incêndio criminoso parecer um acidente, esperou um ano inteiro antes de levar a cabo o plano malévolo.

Finalmente, Purochana achou que tinha esperado o suficiente. E o atento Yudhisthira, percebeu que o momento fatídico havia chegado, chamou seus
irmãos e disse a eles que agora ou nunca era a hora de escaparem.

Kuntidevi organizou um banquete suntuoso para o séqüito naquele dia.

 Sua idéia era acalmá-los para um sono bem alimentado durante a noite.

À meia-noite, Bhima ateou fogo em vários lugares do palácio.
Kuntidevi e os irmãos Pandavas correram pela passagem subterrânea e apalpavam seu caminho através da escuridão. Enquanto isso, houve um incêndio estrondoso que consumiu todo o palácio, e uma multidão crescia com rapidez por toda volta, com os cidadãos apavorados em alta lamentação e desespero.

Alguns se apressavam em tentativas fúteis de extinguir a conflagração, e todos se juntaram em uníssono:

 "Ai de mim! Ai de mim! Isso é com certeza obra de Duryodhana, e ele matou os Pandavas imaculados"!

O palácio foi reduzido a cinzas. A residência de Purochana foi envolvida nas chamas antes que pudesse escapar, e ele foi vítima sem piedade de seu próprio plano malévolo.

O povo de Varanavata mandou a seguinte mensagem a Hastinapura:

 "O palácio onde os Pandavas moravam sofreu um incêndio e ninguém escapou com vida".

Vyasa descreveu belamente o estado mental de Dhritarastra:

 "Do mesmo modo como a água de uma piscina profunda é fria no fundo e quente na superfície, assim estava o coração de Dhritarastra ao mesmo tempo quente de alegria e gélido de tristeza".

Dhritarastra e seus filhos tiraram suas vestes reais em sinal de pesar pelos Pandavas que achavam terem sido consumidos pelo fogo. Eles se vestiram com roupas simples como fazem os parentes em luto e foram para o rio a fim de executarem os rituais funerais apropriados.

Nenhum comportamento para exibição de coração partido foi omitido.
Notou-se que Vidura não estava tão triste como os outros, e isso foi atribuído a seu caráter filosófico. Mas o motivo verdadeiro, ele sabia que os Pandavas tinham escapado com segurança.

Quando parecia triste, ele de fato seguia a exaustiva jornada dos Pandavas em sua mente. Ao ver Bhisma afundado em tristeza, Vidura o animou em
segredo por revelar a história da escapada bem sucedida deles.

Bhima viu que sua mãe e irmãos estavam exaustos por causa das vigílias noturnas bem como pelo medo e ansiedade.

 Assim ele carregou sua mãe nos ombros, pôs Nakula e Sahadeva nos quadris e segurou Yudhisthira e Arjuna com suas mãos.

Com essa carga pesada, ele andava a passos largos como um elefante altivo que abria seu caminho através da floresta e punha de lado os arbustos e
árvores que obstruíam o caminho.

Quando chegaram no Ganges, havia um barco pronto para eles com um
barqueiro que sabia o segredo. Eles atravessaram o rio na escuridão e entraram na floresta espessa, assim prosseguiram durante a escuridão da noite que os envolvia como uma mortalha e num silêncio quebrado horrivelmente pelos alaridos assustadores de animais selvagens.

Por último, esgotados pela fadiga, eles se sentaram sem agüentar mais as dores da sede e sem suportar a inércia da extrema fadiga. Kuntidevi disse: "Não me importo se os filhos de Dhritarastra estiverem aqui para me
capturar, mas preciso estirar minhas pernas".

 Ela se deitou então e caiu em sono profundo.

Bhima forçou seu caminho pela floresta entrelaçada à procura de água na escuridão. Quando encontrou uma lagoa, ele molhou sua roupa, fez copos
com folhas de lótus e trouxe água para sua mãe e irmãos que morriam de sede.

Então, enquanto os outros dormiam num esquecimento compassivo de sua aflição, Bhima permaneceu desperto sozinho absorto em reflexão profunda:
"Por que os malvados Dhritarastra e Duryodhana tentam nos ferir desse jeito"? Por ser impecável, Bhima não conseguia entender o surgimento da perversidade nos outros, e ficou muito triste.

Os Pandavas continuaram sua marcha onde sofreram muitas dificuldades e passaram por vários perigos. Durante parte do caminho, carregavam sua mãe para melhorar a velocidade. Às vezes, cansados além da resignação heróica, paravam e descansavam.

 Às vezes, cheios de vida e com a gloriosa força da juventude, brincavam de corrida entre si.

Eles se encontraram com Bhagavan Vyasa no caminho. Todos lhe prestaram reverências e receberam encorajamento e conselho sábio dele.

Quando Kunti lhe contou sobre o pesar que caiu sobre eles, Vyasa a consolou com essas palavras:

 "Nenhuma pessoa virtuosa é forte o suficiente para viver em virtude o tempo todo, nem qualquer pessoa pecadora é má o suficiente para viver num lodaçal de pecado. A vida é um tecido entrelaçado e não existe ninguém no mundo que não tenha feito tanto o bem como o mal.

Cada um e todos têm que suportar as conseqüências de suas ações. Não se renda à tristeza".

Assim, eles se vestiram com roupas de brâmanes, como Vyasa aconselhou, e foram para a cidade de Ekachakra onde permaneceram na casa dum
brâmane à espera de dias melhores.

publicado por Lalanesha Dasa às 00:59

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Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

MAHABHARATA ( parte 12 )

Drona, filho de um brahmana chamado Bharadwaja, após completar seus estudos dos Vedas e Vedangas, dedicou-se à arte do arco e flecha e se tornou um grande mestre.

Drupada, filho do rei de Panchala, que era amigo de Bharadwaja, foi colega de Drona no monastério, onde cresceu uma generosa intimidade juvenil entre os dois.

Drupada, com seu entusiasmo juvenil, costumava dizer a Drona que daria metade de seu reino a ele quando ascendesse ao trono.

 Depois de sua formatura, Drona se casou com a irmã de Kripa, e tiveram um filho chamado Asvathama.

Drona tinha um apego apaixonado pela esposa e filho, e por causa deles, desejava obter fortuna, algo que nunca havia ligado antes. Quando soube
que Parashurama distribuiria sua fortuna para os brahmanas, foi primeiro
a ele. Mas era tarde demais pois Parashurama já tinha dado toda fortuna e ia se retirar na floresta. Mas, preocupado em dar algo a Drona, Parashurama se
ofereceu para ensinar-lhe o uso das armas, de que era mestre supremo.

Drona aceitou com alegria, e de grande arqueiro, que já era, passou a mestre insuperável da arte militar, digno de ser bem vindo como preceptor em qualquer principado, nesta era da guerra.

Enquanto isso, Drupada ascendeu ao trono de Panchala com a morte de seu pai.

 Com a lembrança de sua intimidade infantil e as afirmações de Drupada em querer servi-lo, até em compartilhar seu reino, Drona foi a ele com
esperança de ser tratado generosamente.

Mas encontrou um rei bem diferente do estudante. Ao se apresentar como um velho amigo, Drupada não ficou contente em vê-lo e aceitou isso como uma
presunção intolerável. Inebriado de poder e riqueza, Drupada disse: "Seu
brahmana, como ousa me chamar de velho amigo? Qual amizade pode haver
entre um rei coroado e um mendigo andarilho? Você deve ser muito tolo em
presumir que algo do passado distante possa cobrar a amizade dum rei que governa um reino.

 Como um pobre pode ser amigo duma pessoa rica, ou um rude ignorante dum professor emérito, ou um covarde dum herói? A amizade só pode existir entre iguais. Um mendigo vagabundo não pode ser amigo dum soberano". Drona foi expulso do palácio com desprezo em seus ouvidos e uma ira ardente em seu coração.

Ele fez um juramento íntimo que puniria o rei arrogante pelo seu insulto e seu repúdio às promessas sagradas da amizade infantil. Seu próximo movimento à procura de emprego foi em direção a Hastinapura, onde passou alguns dias, em retiro, na casa de seu cunhado, Kripacharya.

Certo dia, os príncipes brincavam com uma bola fora dos limites da cidade, até que num momento do jogo, a bola caiu num poço, junto com o anel de
Yudhisthira. Os príncipes foram olhar no poço e viram o anel que brilhava no
fundo através da água limpa. Mas não conseguiram tirar o anel. Entretanto, não notaram um brahmana de pele escura que estava perto e os observava com um sorriso.

"Príncipes", ele os surpreendeu, "vocês são descentes da heróica dinastia Bharata. Por que não conseguem tirar a bola, como qualquer perito no
uso de armas saberia fazer? Será que terei de fazer para vocês"?

Yudhisthira riu e disse em tom de brincadeira: "Salve brahmana, se conseguir tirar a bola, veremos que você come bem na casa de
Kripacharya". Então Drona, o brahmana forasteiro, pegou uma folha de
grama e atirou-a dentro do poço depois de recitar algumas palavras de poder para lançá-la como se fosse uma flecha.

A folha de grama disparou e fincou na bola.

 Depois, ele disparou uma sucessão de outras folhas de grama que fincavam uma na outra e formaram uma corrente, com a qual Drona recuperou a bola.

Os príncipes ficaram abismados e muito felizes, e pediram a ele para pegar o anel também. Drona pegou um arco emprestado, pôs uma flecha na corda e acertou em cheio bem no centro do anel, o ricochete da flecha atirou o anel para cima, e o brahmana o entregou ao príncipe com um sorriso.

Ao verem tudo isso, os príncipes ficaram admirados e disseram:
"Nós o saudamos, ó brahmana. Quem é você? Podemos fazer algo por você"? E prestaram reverências a ele.

Ele disse: "Salve príncipes, vão até Bhisma e saibam dele quem eu sou".

Pela descrição dada pelos príncipes, Bhisma sabia que o brahmana não poderia ser outro além do famoso mestre Drona. Ele decidiu que Drona era a pessoa adequada para ministrar a educação avançada dos Pandavas e dos Kauravas. Assim, Bhisma o recebeu com honras distintas e o contratou para ser o instrutor dos príncipes no uso das armas.

Logo que os Kauravas e os Pandavas conseguiram dominar a ciência das armas, Drona mandou Karna e Duryodhana para capturar Drupada e trazê-lo vivo, como cumprimento do dever devido a ele como mestre.

Eles foram como ordenados por ele, mas não conseguiram realizar a tarefa. Então o mestre mandou Arjuna com a mesma missão.

 Ele derrotou Drupada em batalha e o trouxe cativo junto com seus ministros para Drona.

Então Drona se dirigiu a Drupada com um sorriso: "Grande rei, não tema por sua vida. Fomos companheiros em nossa infância mas você achou melhor
esquecer isso e me desonrar. Você me disse que um rei só pode ser amigo de outro rei. Agora eu sou um rei, após conquistar seu reino. Mesmo assim pretendo recuperar minha amizade com você, por isso lhe dou metade do seu reino que se tornou meu por conquista. Seu credo é que a amizade só é possível entre iguais.
E agora somos iguais, cada um com metade do seu reino".

Drona achou que fosse uma vingança suficiente pelo insulto que sofreu, libertou Drupada e o tratou com honra.

 Assim o orgulho de Drupada foi humilhado, mas o ódio nunca é extinto com retaliação, poucas coisas são piores de tolerar do que as dores da vaidade ferida, a paixão governante da vida de Drupada se tornou seu ódio por Drona e o desejo de vingança.

O rei realizou tapasya (penitências), jejuou e fez sacrifícios a fim de obter a bênção dos deuses e ter um filho capaz de matar Drona e uma filha para casar com Arjuna.

Seus esforços foram coroados com sucesso assim nasceu Dristadyumna
que comandou o exército Pandava em Kurukshetra, e matou o até então
inconquistável Drona ajudado por uma soma de circunstâncias, e nasceu Draupadi, a esposa dos Pandavas.

publicado por Lalanesha Dasa às 17:56

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MAHABHARATA ( parte 11 )

BHIMA

Os cinco filhos de Pandu e os cem filhos de Dhritarastra cresceram
com alegria e diversão em Hastinapura. Bhima excedia todos em força física. Ele costuma maltratar Duryodhana e os outros Kauravas, batia neles e os arrastava pelo cabelo.

Grande nadador, ele mergulhava, nos lagos, com um ou mais deles
imobilizados em seus braços, e ficava no fundo até eles quase se afogarem.
Quando eles subiam numa árvore, ele ficava no chão e chacoalhava a árvore até fazê-los cair como frutas maduras.

Os corpos dos filhos de Dhritarastra estavam sempre doloridos com
machucados em resultado das brincadeiras físicas de Bhima. Não é para menos que os filhos de Dhritarastra desenvolveram um ódio profundo por Bhima desde a infância.

Durante o crescimento dos príncipes, Kripacharya lhes ensinou a
arte do arco e flecha, as artes marciais e outras que os príncipes devem saber. A inveja de Duryodhana em relação a Bhima deturpou sua mente e o fez cometer muitos atos impróprios.

Duryodhana estava muito preocupado. Seu pai era cego, por isso o
reino foi governado por Pandu. Quando ele morrer, Yudhisthira, o herdeiro
legítimo, seria o rei em seguida. Duryodhana pensou que como seu pai cego era muito incapaz, tinha que prevenir a ascensão de Yudhisthira ao trono, e
idealizou um plano para matar Bhima.Ele organizou o esquema para executar sua decisão, pois achava que o poder dos Pandavas se reduziria com a morte de Bhima.Duryodhana e seus irmãos planejaram afogar Bhima no Ganges,
aprisionar Arjuna e Yudhisthira, então tomar o reino e assumirem o governo.
Assim, Duryodhana foi com seus irmãos e os Pandavas para nadarem no Ganges.

Depois das brincadeiras esportivas, eles dormiram em suas tendas,exaustos. Bhima tinha excedido mais que os outros e como sua comida foi envenenada, sentiu-se sonolento e adormeceu na margem do rio. Duryodhana o amarrou com cipós silvestres e o jogou no rio.

O malévolo Duryodhana preparou o local com vários cravos
pontiagudos implantados no leito do rio. Isso feito de propósito para que Bhima fosse empalado nos cravos ao cair no fundo, e perdesse sua vida. Felizmente, não tinha nenhum cravo no lugar onde Bhima caiu. Cobras-d'água venenosas picaram seu corpo.

O efeito do veneno que ele ingeriu com a comida foi anulado pelo veneno das serpentes e Bhima não sofreu mal nenhum, e depois, o rio o jogou de volta para a margem.

Duryodhana pensou que Bhima tinha morrido quando foi jogado no rio infestado de serpentes venenosas e cheio de cravos. Assim, ele voltou para a cidade com o resto do grupo em grande alegria.

Quando Yudhisthira perguntou sobre o paradeiro de Bhima,
Duryodhana disse que ele veio antes deles para a cidade.

Yudhisthira acreditou em Duryodhana e logo que chegou em casa,
perguntou à sua mãe se Bhima estava lá.

Sua pergunta ansiosa teve a resposta de que Bhima não tinha voltado ainda, o que fez Yudhisthira suspeitar de alguma brincadeira de mau gosto feita contra seu irmão. Então, voltou para a floresta com seus irmãos e procuraram em toda parte. Mas não conseguiram encontrar Bhima. Voltaram para casa com muita tristeza.

Algum tempo depois, Bhima acordou e caminhou vagaroso de volta
para casa. Kunti e Yudhisthira o receberam e abraçaram com muita alegria. Em conseqüência do veneno que entrou em seu organismo, Bhima ficou mais forte do que antes.

Kunti procurou Vidura e lhe contou em segredo:

"Duryodhana é mau e cruel. Ele tentou matar Bhima pois deseja
governar o reino. Estou preocupada".Vidura respondeu: "O que você disse é verdade, mas mantenha seus pensamentos para si mesma. Pois se o malévolo Duryodhana for acusado ou culpado, sua ira e ódio só aumentarão. Seus filhos são abençoados com vida longa. Você não precisa ter medo por causa disso".

Yudhisthira também avisou Bhima e disse: "Mantenha o silêncio
sobre esse assunto. De agora em diante, temos que ser cautelosos e nos cuidar, e nos proteger".

Duryodhana ficou surpreso de ver Bhima voltar vivo. Sua inveja e
ódio aumentaram. Ele lamentou profundamente e saiu a reclamar.

(KARNA)

Os Pandavas e os Kauravas aprenderam as artes militares primeiro com Kripacharya e depois com Drona.

 Certo dia, foi marcado um teste para a exibição de suas habilidades com o uso das armas na presença da família real, bem como do público que foi convidado para assistir o desempenho de seus amados príncipes. Tinha uma grande multidão muito entusiasmada.

Arjuna demonstrou habilidade sobre-humana com suas armas e o grande público ficou arrebatado com admiração e afeição. A fronte de Duryodhana ficou escura de inveja e ódio.

Perto do final do dia, ouviu-se de repente um som que vinha da entrada da arena, alto e forte como um trovão, o som produzido pelo bater de braços poderosos em desafio. Todos os olhos se voltaram para aquela direção.
Eles viram entrar através da multidão, que abriu caminho em silêncio temeroso, um jovem divino de quem parecia emanar luz e poder. Ele olhava orgulhoso em sua volta, fez um cumprimento negligente a Drona e Kripa, e andou firme em direção a Arjuna. Os irmãos, sem saberem, pela amarga ironia do destino, de seu sangue comum, estavam face a face, pois era Karna.

Karna se dirigiu a Arjuna com a voz tão profunda como um trovão
estrondoso: "Arjuna, vou demonstrar muito mais habilidade do que você".

Com a permissão de Drona, Karna, o amante da guerra, ali mesmo na frente do público, duplicou todos os feitos de Arjuna com grande facilidade. A
excitação de Duryodhana foi grande. Ele se atirou com seus braços em volta de Karna e disse: "Bem-vindo! Salve você de braços poderosos, quem a boa fortuna nos enviou. Eu e este reino dos Kurus estamos sob seu comando".

Karna disse: "Eu, Karna, sou muito grato, ó rei. Eu só desejo duas coisas, o seu amor e um combate individual com Partha (Arjuna)".

Duryodhana apertou Karna novamente contra seu peito e disse:
"Minha prosperidade é toda para o seu prazer".

Enquanto o coração de Duryodhana derramava amor, uma fúria mortal
preencheu Arjuna, que se sentiu afrontado.

 "Ó Karna, vou matá-lo imediatamente e enviá-lo para o inferno reservado aos intrusos não convidados e tagarelas inconvenientes".

Karna deu uma risada sarcástica: "Esta arena está aberta para todos, ó Arjuna, e não só para você. Poder é a sanção da soberania e a lei se baseia nisso. Mas o que adianta só falar, que é a arma dos fracos? Atire flechas
em vez de palavras".

Assim desafiado, Arjuna, com a permissão de Drona, abraçou seus
irmãos com pressa e se posicionou pronto para o combate. Enquanto Karna, deixou a companhia dos irmãos Kurus e o confrontou com a arma em punho.

Os pais divinos dos heróis tentaram encorajar sua prole e testemunhar esse combate mortal, assim Indra, o senhor das nuvens de raios, e Bhaskara, com seus raios infinitos, apareceram no céu ao mesmo tempo.

Quando viu Karna, Kunti o reconheceu como seu primeiro filho e desmaiou. Vidura pediu para as amas cuidarem dela, e assim que acordou., ficou tomada de angústia, sem saber o que fazer.

Quando estavam prestes a iniciar o combate, Kripa, conhecedor das regras de combate individual, parou entre os dois e se dirigiu a Karna:

 

"Este príncipe, que está pronto para lutar com você, é filho de Pritha e Pandu, e descendente da dinastia Kuru.

 Revele, ó de braços poderosos, sua ascendência e dinastia descendente que tornam ilustre o seu nascimento. Partha só poderá lutar com você depois de saber a sua linhagem, pois os príncipes com alto nascimento não podem entrar em combates individuais com qualquer aventureiro desconhecido".

Ao ouvir essas palavras, Karna abaixou sua cabeça como as pétalas
duma flor de lótus sob o peso da água da chuva.

Duryodhana se levantou de imediato e disse: "

Se o combate não pode acontecer só porque Karna não é um príncipe, isso pode ser solucionado facilmente. Eu corôo Karna como rei de Anga". Então, com o consentimento de Bhisma e Dhritarastra, realizou todos os ritos necessários e nomeou Karna soberano do reino de Anga, e lhe deu a coroa, as jóias e outras insígnias reais.

Naquele momento, quando o combate entre os jovens heróis parecia que ia começar, o velho cocheiro, Adhiratha, que era o pai adotivo de Karna, entrou na arena, com o bastão na mão e tremia de medo.

Logo que o viu, Karna, o recém coroado rei de Anga, abaixou sua cabeça e se ajoelhou em humildade com toda a reverência filial.

 O homem idoso o chamou de filho, abraçou-o com seus braços magros e trêmulos, e chorou de alegria com lágrimas de amor que molharam sua cabeça já úmida pela água da coroação.

Ao ver isso, Bhima bramiu uma risada alta e gritou: "Ó vejam, ele é só o filho dum cocheiro! Pegue o chicote de condutor que condiz com a sua ascendência. Você não é digno de ser morto pelas mãos de Arjuna. Nem deve governar Anga como um rei".

Com essa fala ultrajante, os lábios de Karna tremeram de angústia
e sem fala, olhou em direção ao sol poente com um profundo suspiro.

Mas Duryodhana interrompeu indignado:

"Ó Vrikodara (Bhima), você é injusto ao falar assim. O valor é a marca de um kshatriya. Nem tem sentido delinear grandes heróis e grandes rios por suas origens. Posso citar muitos exemplos de grandes personalidades de
nascimento humilde e eu sei que há dúvidas estranhas sobre a sua própria origem. Olhe para esse guerreiro, sua bela forma e porte, sua armadura e brincos, e sua habilidade com as armas. Claro que existe um mistério em relação a ele. Como pode um tigre nascer de um antílope? Você disse que ele não é digno de ser o rei de Anga? Eu acho que ele é capaz para governar o mundo inteiro".

Com uma fúria generosa, Duryodhana levou Karna em sua quadriga e partiu.

O Sol se pôs e a multidão se dispersou com tumulto. Vários grupos discutiam sob a luz de lâmpadas, alguns glorificavam Arjuna, outros, Karna, e outros ainda, Duryodhana, conforme suas predileções.

Indra previu que um combate final seria inevitável entre seu filho Arjuna e Karna.

 Assim, assumiu a forma de um brahmana e foi se encontrar com Karna, que tinha reputação de caridoso, e lhe pediu de esmola seus brincos e
armadura.

 O deus do Sol já tinha avisado Karna num sonho que Indra tentaria
enganá-lo dessa forma.

Mesmo assim, Karna não conseguia recusar nenhum presente que lhe fosse pedido.

 No mesmo instante, cortou os brincos e a armadura que nasceram com
ele e lhes deu ao brahmana.

Indra, o rei dos deuses, ficou muito surpreso e feliz. Depois de aceitar o
presente, elogiou Karna por ter feito o que ninguém mais faria, e envergonhado com generosidade, disse a Karna para pedir qualquer bênção que desejasse.

Karna respondeu: "Eu desejo obter a sua arma, a Shakti, que tem o poder de matar os inimigos". Indra concedeu a bênção, mas com uma condição
fatídica, ele disse: "Você poderá usar esta arma contra um só inimigo apenas, e ela matará quem quer que ele seja. Mas depois dessa morte, esta arma não estará mais à sua disposição e retornará a mim". Ao dizer essas palavras, Indra desapareceu.

Karna foi até Parashurama e se tornou seu discípulo pois fingiu ser um brahmana para ele. Ele aprendeu com Parashurama o mantra para usar a arma suprema conhecida como brahmastra.

Certo dia, Parashurama estava deitado com a cabeça encostada no
colo de Karna quando um verme escavador entrou dentro da coxa de Karna. Começou a sangrar e a dor era terrível. Mas Karna agüentou tudo sem mesmo tremer pois não queria perturbar o descanso de seu mestre. Parashurama acordou e viu o sangue que tinha escorrido da ferida.

Ele disse: "Caro aluno, você não é um brahmana. Só um kshatriya consegue ficar imóvel sob tortura física. Diga-me a verdade".

Karna confessou que mentiu ao se apresentar como brahmana e que de fato era filho dum cocheiro.

Parashurama com sua ira pronunciou a seguinte maldição para ele:
"Porque você enganou seu guru, a brahmastra que você aprendeu vai falhar no momento fatal. Você não será capaz de lembrar o mantra quando chegar a sua hora".

Foi por causa dessa maldição, quando entrou em crise na sua última luta com Arjuna, que Karna não conseguiu lembrar do encanto da brahmastra, apesar de ter lembrado até o momento. Karna se tornou amigo fiel de Duryodhana e permaneceu leal aos Kauravas até o fim.

Depois da morte de Bhisma e Drona, Karna se tornou o líder do exército Kaurava e lutou com muito brilho por dois dias. No fim, a roda de sua
quadriga ficou presa na lama, e teve de abandoná-la pois não conseguiu
desatolar. E nessa situação, Arjuna o matou. Kunti ficou muito amargurada, e com muito remorso por ter escondido a verdade até então.

 

publicado por Lalanesha Dasa às 13:46

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Sábado, 16 de Julho de 2011

MAHABHARATA ( parte 10)

Vasudeva Manda Presentes

Quando os filhos de Pandu vieram a este mundo, os ascetas habitantes do Cem Picos uma vez aceitaram-nos em sua comunidade, tratando-os como seus próprios filhos. Entretanto, os membros da dinastia Vrsni, encabeçada por Vasudeva, falavam entre eles mesmos o seguinte:

– Assustado pela maldição do brahmana, Pandu viajou para os Cem Picos e lá tornou-se um asceta, residindo com os sábios. Ele viveu na floresta, alimentou-se de vegetais, raízes e frutas, realizou austeridades, controlou seus sentidos com cuidado, e devotou-se por completo à meditação mística na forma do Senhor no coração. Assim o rei viveu.” [o líder Vrishni, Vasudeva, era irmão de Kunti e cunhado de Pandu.]

Os muitos guerreiros Vrishni, com seus amigos e aliados, compartilhavam um grande amor por Pandu, tanto que ao ouvirem e discutirem as notícias sobre a situação dele, seus corações transbordavam de pesar. “Quando ouviremos boas notícias sobre Pandu?”, lamentavam. Mesmo enquanto os Vrishnis a seus amigos ainda estavam aflitos, eles ouviram que Pandu, a despeito da maldição do brahmana, tornara-se pai de notáveis filhos. Todos eles então encheram-se de júbilo. Celebrando entre eles mesmos, falaram a Vasudeva estas palavras:

– Os poderosos filhos de Pandu não podem ser privados das cerimônias religiosas apropriadas. Ó Vasudeva, você sempre se esforça pelo bem-estar e pela afeição deles. Mande-lhes o sacerdote real”.

– Assim seja – disse Vasudeva, e ele mandou o sacerdote real, junto com muitos presentes apropriados ao jovens meninos. Lembrando de Kunti e Madri, ele também mandou vacas, ouro e prata, e enviou servos, servas e presentes para a casa. Quando todos esses presentes estavam prontos, o sacerdote os pegou e partiu.

Quando o Rei Pandu, que havia conquistado as cidades de seus inimigos, viu que o sacerdote real Kashyapa, o melhor dos brahmanas, havia vindo até eles na floresta, Pandu o recebeu com honra completa, estritamente observando a etiqueta. Kunti e Madri ficaram contentes e exaltaram Vasudeva. Pandu então tinha o sacerdote para executar todos os ritos religiosos para o nascimento de seus filhos, e Kashyapa fez tudo que foi solicitado e tudo que era benéfico. Ele cortou o cabelo daqueles ilustres príncipes, cujos olhares eram tão destemidos quanto o de um búfalo. Ele os iniciou como sérios estudantes da ciência Védica, e eles se distinguiram em seus estudos.

Vishampayana continuou:

Olhando seus cinco belos filhos crescerem na grande floresta Himalaya, Pandu regozijava-se, e protegia os meninos com suas próprias mãos poderosas. Uma vez, na altura da Primavera, quando a floresta estava resplandecente com novas flores coloridas, o rei Pandu começou a vagar entre árvores com sua fervorosa esposa Madri. Tão amável e sensual estava a floresta que podia encantar a mente de qualquer criatura.A floresta amável estava viva, com frutas e flores a desabrochar, e palmeiras, esplendorosos caramanchões, manga e campaka celestial. O cenário colorido cintilava com o frescor da Primavera, rios e lagos cheios de lotos, e enquanto Pandu contemplava a floresta, o intrometido Cupido surgiu em seu coração.Vestida em trajes brilhantes, Madri viu Pandu desportivo como um semideus, sua bela face inspirava afeição, e ela seguia atrás dele. Pandu observava sua jovem esposa, em seu fino vestido, caminhando ao longo, e seu desejo agora crescia como um fogo que arde das profundezas do seu combustível. Sozinho com Madri naquele vale isolado, Pandu viu o mesmo fogo queimando no coração de Madri, e ao fixar-lhe nos olhos amáveis, ele não pôde controlar seu desejo, pois tomara conta de toda sua vida.

Nessa floresta secreta o monarca segurou sua esposa à força. A deusa torceu-se e lutou com toda sua energia para impedi-lo, mas o desejo já o havia possuído, e Pandu nada lembrava da maldição. À força ele foi para cima de Madri no ato de amor. Como se encerrasse sua vida, o grande monarca Kuru, ao largo de seu grande medo da maldição, caiu sob o domínio do Cupido.
[Deus é dito ser a força do tempo, que arrebata todas as coisas neste mundo.] O destino, como o revelado ao longo do tempo, tanto hostilizou os sentidos de Pandu e confundiu sua inteligência, que ele perdeu sua razão e mesmo sua ordinária consciência. Ó criança Kuru, por estar unido à sua esposa, aquele mais virtuoso rei estava preso aos implacáveis trabalhos do tempo.

Abraçando forte o insensível rei, Madri lamentou em agonia. De novo e de novo seus atormentados gritos atravessaram o céu da floresta, até Kunti vir correndo com todos os cinco meninos para ver o que estava errado. Ao chegarem perto do rei caído, Madri gritou para Kunti:

– Venha aqui sozinha! As crianças devem permanecer onde estão! Ouvindo estas palavras, Kunti segurou as crianças atrás e prosseguiu sozinha. [Sabendo intuitivamente o que havia acontecido] ela gemeu para si mesma: –Minha vida acabou! Minha vida está terminada!

– Então ela viu Pandu e Madri deitados no chão. Todos os membros de Kunti ficaram paralisados de sofrimento, e ela lamentou em dor.

– Eu sempre o protegi! – ela soluçou – e ele era um alma auto realizada e em total controle de si mesmo. Ó Pandu, você sabia que o brahmana da floresta o havia amaldiçoado. Como pôde violar a maldição? [Tremendo de dor, Kunti
dirigiu-se a Madri:]
– De todas as pessoas, Madri, você estava preparada para proteger o rei. Como pôde ser luxuriosa para ele nesta floresta isolada? O pobre rei estava sempre preocupado com a maldição. Como pôde ele ficar tão agitado pelo desejo, que viria até você num lugar retirado? Ó Madri, você é abençoada. Você é de longe muito mais afortunada do que eu; você viu a face de Pandu no seu êxtase de desejo.

Madri disse:
– O rei foi seduzido por mim. Eu tentei de novo e de novo impedi-lo, mas ele recusou-se a retroceder, como se ele mesmo fizesse as palavras do brahmana tornarem-se verdade.

Kunti disse:
– Eu sou a mais velha das esposas deles, e se nossos anos de serviço fervoroso são para produzir frutos, então a primeira recompensa é para a mais velha. Não me faça retroceder, Madri, do que tem de vir a ser. Eu vou seguir meu senhor que faleceu. Você pode aparecer agora! Você pode deixar de ir com ele [pois eu morrerei com Pandu na pira funerária]. Cuide dessas crianças!

Madri disse:
– Eu tenho de
seguir meu esposo, pois ele não retornará. Meus desejos por ele não foram
satisfeitos. Como minha superior, por favor deixe-me fazer isto! O grande rei
Bharata aproximou-se de mim com desejo no momento de sua morte. Como posso frustrar seu amor, mesmo nas mansões de Yamaraja? E fosse eu a permanecer neste mundo, Kunti, não conseguiria tratar seus filhos como os meus próprios.
Eu demonstrarei meu real caráter, e então, nobre senhora, o mal poderia na verdade deitar mãos sobre mim. Portanto, Kunti, você tem de cuidar dos meus meninos como seus filhos, pois você realmente pode fazê-lo. Além de tudo, o rei estava ardente por mim quando ele faleceu. Meu corpo é para ser queimado na pira funerária em companhia do rei. Os corpos têm de estar cobertos por completo. Ó nobre mulher, faça-me esta bondade! Seja cuidadosa, e faça o que for melhor para as crianças! Não vejo mais nada a ser dito.

Vaishampayana disse:
Pandu foi o melhor dos homens, e a filha do rei Madra o amou com voto sagrado. Agora aquela famosa mulher Madri não pode conter o seu pesar. E por se sentir responsável pela morte do rei, entrou na pira de seu esposo e se queimou, após implorar a Kunti para ficar e ser a mãe de seus dois gêmeos órfãos.Os sábios da floresta levaram Kunti e os Pandavas desolados e em luto para Hastinapura e os confiaram a Bhisma.Yudhisthira tinha dezesseis anos nessa época. Quando os sábios chegaram em Hastinapura e relataram a morte de Pandu na floresta, todo o reino foi tomado de tristeza. Vidura, Bhisma, Vyasa, Dhritarastra e outros executaram os rituais de funeral.

Todas as pessoas do reino lamentaram como uma perda pessoal. Vyasa
disse a Satyavati, a avó: "O passado se foi de forma agradável, mas o futuro tem muita tristeza reservada. O mundo passou sua juventude como um sonho alegre e agora vai entrar em desilusão, pecado, tristeza e sofrimento. O tempo é inexorável. Você não precisa esperar para ver os sofrimentos e infortúnios que acontecerão com esta dinastia. O melhor para você é sair da cidade e passar o resto de seus dias em retiro na floresta". Satyavati concordou e foi para a floresta com Ambika e Ambalika. Essas três rainhas idosas passaram do ascetismo santo para as regiões superiores da bem-aventurança e se pouparam dos pesares de seus filhos.

publicado por Lalanesha Dasa às 00:39

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MAHABHARATA ( parte 9)

 Cumpre-se a Maldição do Brahmana

Rei Pandu foi amaldiçoado a morrer se viesse a se aproximar de suas esposas para o intercurso sexual. A pedido dele, portanto, sua esposa Kunti deu à luz três filhos pela união com semideuses.

Como o Mahabharata prossegue, o sábio Vaishampayana fala do nascimento dos dois filhos de Madri, a outra esposa de Pandu, e da morte do rei. Pois o poderoso monarca, que na floresta tornou-se senhor de seus sentidos, como em outros tempos havia conquistado seus inimigos, caiu prisioneiro de luxúria
incontrolável.

Vaishampayana continuou:

Depois que Kunti e Gandhari deram à luz os seus filhos, a amável Madri, filha do rei Madra, abordou seu marido, Pandu, em lugar reservado e falou estas palavras:

– Eu não tenho nenhuma queixa contra você, mesmo que você tenha me tratado de maneira injusta. Tenho sempre recebido o papel inferior, embora por direito era para eu ser venerada. Nem fiquei infeliz ou ciumenta quando ouvi que Gandhari deu à luz cem filhos. Mas cabe-me contar a você o que me faz muito infeliz. Embora eu esteja à altura dessas mulheres, não tenho filhos! Nossa boa fortuna é que Kunti deu-lhe filhos para preservar sua dinastia. Se ela pudesse arranjar-me a possibilidade de dar-lhe filhos também, seria a maior bênção para mim e bom para você. Por causa da minha rivalidade natural com Kunti, não posso eu mesma pedir-lhe, mas se você estiver de alguma maneira satisfeito comigo depois de todos esses anos, você pessoalmente poderia convencê-la.

Pandu disse:
– Minha querida Madri, você sabe que o anseio por filhos está sempre volteando em meu coração. [Eu queria que você pedisse a Kunti para compartilhar a graça dela com você, mas] não me atrevi a pedir-lhe isso porque não estava certo se você ficaria satisfeita com a idéia ou não. Mas agora que conheço seus sentimentos, aceito pessoalmente a responsabilidade de fazer isso por você. Estou certo de que Kunti acatará minha instrução.

Vaishampayana disse:
Em seguida Pandu conversou com Kunti em lugar reservado e falou-lhe:

– Vmocê te de agir para preservar minha família e trazer felicidade para o mundo. Você é uma mulher boa, e agora, fora do seu amor por mim, tem de realizar um ato supremo de bondade para que eu e nossos antepassados jamais percamos o Pinda sagrado. Pela honra de seu bom nome e glória, execute esta tarefa difícil. Mesmo depois de alcançar soberania, Senhor Indra realizou sacrifícios, pretendendo boa reputação.

Ó amável senhora, os duas vezes nascidos conhecedores de mantras ainda empreendem árduas austeridades e servem seus gurus por honra de glória e de um bom nome. Igualmente todos os videntes santos, brahmanas e ascetas executam difíceis tarefas, grandes e pequenas por honra da verdadeira glória. Ó impecável mulher, com o barco de sua graça é você que tem de conduzir Madri através do rio de seu pesar. Compartilhe a dádiva da descendência e alcance a mais alta glória.Assim orientada, Kunti de imediato falou com Madri:

– Você tem de pensar em um semideus, uma vez, e sem dúvida ele lhe concederá um filho com qualidades semelhantes às dele próprio.

Ouvindo estas palavras, Madri considerou a questão com cuidado, até que por fim sua mente concentrou-se nos gêmeos Ashvins, os magnânimos médicos dos planetas celestiais. Kunti então fervorosamente cantou o poderoso mantra, e os deuses gêmeos vieram de imediato e geraram em Madri um par de gêmeos.

Os dois filhos de Madri, inigualáveis em beleza, tonaram-se conhecidos neste mundo como Nakula e Sahadeva. Como com os outros filhos de Pandu, uma voz invisível anunciou os seus gloriosos nascimentos: “Estes dois meninos superarão todos os outros em beleza, força e generosidade. De fato eles são abençoados com extraordinário esplendor, vigor, beleza e saúde”.

Assim que esses nobres príncipes iam nascendo para Pandu, um ano após outro**, os brahmanas jubilosos outorgavam-lhes nomes. O mais velho eles chamaram Yudhisthira; o filho do meio de Kunti, Bhimasena; o terceiro, Arjuna. O mais velho gêmeo de Madri eles declararam ser Nakula e o mais jovem, Sahadeva.Todos cinco possuíam grande nobreza, vigor, coragem, força e ousadia. Vendo seus filhos tão garbosos quanto os deuses e muito poderosos, o monarca regozijava-se, e a maior das felicidades era dele. Os cinco meninos Pandavas eram amados por todos os sábios que viviam nos Cem Picos e pelas esposas santas dos sábios.Então Pandu novamente falou com Kunti, solicitando que Madri fosse permitida a usar o mantra especial de novo. Assim que eles ficaram a sós reunidos, a casta Prtha respondeu:

– Eu invoquei o mantra somente uma vez em favor dela, e ela ainda obteve dois filhos. De certo modo eu senti-me enganada por aquilo. Eu temo que Madri supere-me. Lamento, mas essa é a natureza das mulheres. Fui muito tola. Eu não sabia que chamando dois deuses fosse possível conseguir dois filhos de uma vez. Portanto, não poderia ser obrigada por você a fazer isto. Por favor, dê-me essa bênção.

[Pandu concordou.] Então todos cinco filhos dados por deuses nasceram para o Rei Pandu. Cada um deles possuía grande força, todos seriam glorificados por seus feitos heróicos, e todos aumentariam a prosperidade e influência da dinastia Kuru. Seus corpos eram marcados com auspiciosos sinais e eram tão agradáveis à vista como a lua plácida. Orgulhosos como leões, esses filhos possuíam habilidades mortais com arco e flecha.

Eles caminhavam com o andar confiante dos leões, e seus pescoços eram tão robustos como os dos leões. Eram os líderes naturais da sociedade, e enquanto cresciam para a maturidade, seus feitos heróicos revelavam suas origens religiosas. Crescendo na região sagrada do Himalaya, os cinco surpreendiam com constância os santos que residiam lá com eles. Na verdade, tanto os cinco Pandavas como os cem filhos de Dhrtarastra cresceram rápido, como flores de lotos emergindo rápido em águas claras.

publicado por Lalanesha Dasa às 00:31

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MAHABHARATA ( parte 8)

Filhos dos Deuses

Meu querido Rei Janamejaya, depois de um ano de gravidez, a esposa de Dhrtarastra, Gandharî, ainda não tinha dado à luz um filho. Enquanto isso, Kunti invocou o indefectível Dharma, assim ela mesma pôde tornar-se grávida.

Kunti de imediato ofereceu um sacrifício a Dharma e com cuidado cantou o mantra dado a ela anos atrás por Durvasa Muni. Unindo-se com Dharma, que apareceu em sua forma verdadeira como um devotado servo do Senhor, a princesa monumental obteve como seu filho o melhor de todos que respiram.

Exatamente ao meio-dia, no momento mais auspicioso, quando a lua estava especialmente benevolente, as estrelas prediziam piedosas vitórias, Kunti deu à luz um filho de gloriosa fama. Tão logo ele nasceu, uma voz invisível falou do céu:

– Entre todos que seguem com fervor as leis de Deus, esta criança é sem dúvida a melhor. O filho primogênito de Pandu será conhecido como Yudhisthira, “estável em batalha”, e sua fama como monarca se espalhará pelo Universo. Ele é completamente dotado de fama, força e bondade.

Tendo obtido um filho virtuoso como seu primeiro filho, Pandu novamente abordou Kunti e disse:

– É dito que um rei ksatriya é preeminente em força. [Nossos filhos serão líderes, e eles terão de possuir qualidades ideais.] Portanto, escolha por sua bênção um filho que seja o mais forte de todos os homens.

Estando assim instruída por seu esposo, Kunti invocou o poderoso deus do vento, Vayu, e dele nasceu um filho de braços fortes chamado Bhima, “o terrível”, pois ele agiria com força terrível. Na realidade, a força superior de Bhima nunca falharia, e no seu nascimento uma voz celestial declarou:

– De todos os homens poderosos, o mais poderoso nasceu agora.

Na verdade, logo depois de seu nascimento, aconteceu um incidente espantoso. Ainda bebê, Bhima caiu do colo de sua mãe e com seus delicados membros pulverizou um monte
de pedras sólidas. No décimo dia depois de seu nascimento, Kunti levou seu filho a um lago encantador para banhá-lo. Depois de banhá-lo, ela foi visitar vários santuários religiosos na região para obter bênçãos para seu bebê. Assim que Kunti chegou ao pé de uma montanha e parou para descansar, um tigre enorme surgiu de uma caverna na montanha e avançou com velocidade mortal na direção dos indefesos mãe e filho.

Sutilmente Pandu tinha estado olhando sua esposa enquanto ela caminhava na direção da montanha. Ele sempre carregava seu arco e flechas para proteger sua família na selva perigosa. Quando o tigre enorme avançou para matar, Pandu, com a coragem dos deuses, puxou para trás seu arco belo e perfurou o corpo do tigre com três flechas mortais. Lançando-se de volta para dentro de sua toca, a besta ferida de morte encheu a caverna de rugidos terríveis.

Quando o tigre atacou, Kunti pulou com terror, esquecendo-se que sua criança dormia em paz no seu colo. O bebê caiu do colo dela e começou a rolar encosta abaixo. Ele golpeou a montanha de pedra com a força de raios lançados pelo poderoso Indra. Na realidade, enquanto Bhima saltava encosta abaixo, uma pedra sólida quebrou-se em centenas de pedaços. Quando Pandu viu seu filho amado cair do colo de sua mãe, veio correndo, mas quando viu a pedra quebrada, ficou tomado de espanto.

No grande dia em que Bhima nasceu, ó senhor da abundante Terra, Duryodhana também nasceu. Logo depois do nascimento de Bhima, Pandu de novo começou a desejar um outro filho. – Como eu posso ter um outro filho excelente – ele pensou –, um filho que será o mais elevado neste mundo? Sucesso na vida depende tanto das bênçãos de Deus quanto de nossos próprios desejos honestos. Se nós seguirmos com cuidado as leis de Deus e agirmos, na hora apropriada seguramente podemos obter Suas bênçãos.

Temos ouvido que entre os deuses que administram nosso mundo, Indra é o chefe. É dito que ele é possuidor de força imensurável, coragem, nobreza e esplendor. [Seguramente Indra poderia nos dar o maior filho de todos.] Farei um esforço especial para satisfazer Indra por realização de austeridades, e obterei então um filho poderoso. Na realidade, dará um filho mais elevado. Sim, realizarei muitas austeridades difíceis com meu corpo, espírito e minha mente [para convencer o poderoso Indra de nossa sinceridade].

Pandu discutiu seu plano com os grandes sábios e depois instruiu Kunti a observar um voto auspicioso por um ano. E com máxima concentração, Pandu submeteu-se a uma árdua austeridade, postando-se em uma perna do nascer ao pôr do sol sem descanso, determinado a ganhar o favor do Senhor Indra, o chefe dos trinta semideuses principais. Depois de um longo tempo, ó Bharata, Indra dirigiu-se ao virtuoso rei Kuru:

– Eu dar-lhe-ei um filho que será célebre por todo o Universo. Essa criança excelente cumprirá a missão dos deuses, dos brahmanas, e dos seus próprios amados, porque eu darei até você o primeiro dos filhos, e ele derrotará tudo que o opuser. Ouvindo essas palavras do Senhor Indra, e mantendo-as em sua mente, o nobre Pandu disse a Kunti:

– Ó esposa de sorriso doce, nós recebemos a misericórdia do rei dos deuses. Ó esposa bem formada, chame-o agora e gere um filho que carregará todo o fogo e poder da raça guerreira, uma grande alma que será rígida em princípios morais, brilhante como o sol, invencível em batalha, dinâmica, e sumamente maravilhosa de se ver.

Diante de tais palavras, aquela senhora ilustre chamou Indra, e o rei do deuses veio a ela e gerou Arjuna. Assim que a criança nasceu, uma voz do céu falou em tons tão profundos e claros, que os céus ressoaram com a mensagem:

– Ó Kunti, esta criança trará glória para seu nome, porque será tão invencível quanto seu pai poderoso, Indra. Na realidade, seu poder e sua coragem igualar-se-ão às de reis como Kartavirya e Sibi.Assim como o Supremo Senhor Visnu deu sempre crescente satisfação para sua mãe Aditi [quando
Ele apareceu como Vamana], também seu filho Arjuna, que é como Visnu mesmo, aumentará sua felicidade mais e mais. Ele subjugará os guerreiros de Madra, os Kekayas e os guerreiros de Cedi, Ka_i e Karusa, e então ele estabelecerá a autoridade da dinastia Kuru. Pela força de seus braços, o deus do fogo ficará completamente satisfeito por consumir todas as criaturas da floresta Khandava.

Este líder poderoso de seu povo conquistará heroicamente os governantes regionais da Terra e então com seus irmãos realizarão três grandes sacrifícios religiosos. O Kunti, seu filho será feroz em batalha, como o próprio Para_urama, e seus feitos serão tão gloriosos quanto aqueles do Visnu primordial. Arjuna será o muito melhor do heróis, e ninguém o derrotará, porque ele trará consigo as armas celestiais mais avançadas. Assim este melhor dos homens trará de volta a glória e opulência de sua dinastia.

Descansando no quarto de maternidade, Kunti ouviu essas mais extraordinárias palavras que Vayu ele próprio vibrou no céu. Quando os ascetas eruditos dos Cem Picos ouviram estas declarações, brotou entre eles a maior alegria. E então o próprio Senhor Indra, com os semideuses, grandes sábios e outros habitantes do céu, começou a celebrar o nascimento do seu filho terrestre. Tambores celestiais soaram adiante, e um tumulto jubiloso encheu os céus. Chuvas de flores flutuaram para a Terra das moradias divinas, enquanto as comunidades de semideuses e seres religiosos gritavam congratulações reunidos para honrar o filho enaltecido de Prtha.

O próprio Pandu adorou feliz o Senhor Supremo e Seus representantes autorizados. Satisfeito com sua adoração, os semideuses então dirigiram-se ao melhor dos reis:

– Pela misericórdia do Senhor Supremo, atuando por meio de semideuses seus agentes autorizados, a Justiça nasceu como seu primeiro filho, Yudhisthira; o potente Vento apareceu como seu poderoso filho Bhima que sempre aniquilará o mau; e agora pela misericórdia de Indra, Arjuna apareceu como seu filho, dotado com toda a potência do Senhor Indra. Certamente não há ninguém mais piedoso que você, pois os próprios semideuses tornaram-se pais de seus filhos. Você está livre de seu débito para com os antepassados, e você alcançará a morada celestial, pois o mérito da piedade é seu júbilo.Tendo assim falado, todos os semideuses partiram como haviam chegado.

Rei Pandu, entusiasmado com suas bênçãos, ainda não estava saciado, mas ao contrário sentia-se encorajado a seguir adiante seu desejo intenso de filhos elevados. De novo, portanto, o monarca ilustre pediu à sua amável e bem formada esposa Kunti para gerar um filho, mas desta vez Kunti recusou-se inflexível e falou as seguintes palavras:

– Mesmo em tempos de crises, autoridades não permitem a uma mulher aproximar-se de quatro homens diferentes. Se me aproximar de mais um outro homem, com certeza tornar-me-ei uma mulher caída. Uma quinta vez e tornar-me-ia uma meretriz ordinária. Pandu, você fala como um homem louco. Como você pode pensar em violar minha honra desta forma por causa de um outro filho? Precisamos nos lembrar dos princípios!

– Sim – disse Pandu – ,você está certa. Os princípios religiosos são exatamente como você os declarou.

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MAHABHARATA ( parte 7)

O Pedido do Rei Pandu

Ouvindo as palavras dos sábios a quem ele reverenciava profundamente, Pandu curvou-se aos seus pedidos. Mas visto que eles estavam partindo, revelou-lhes o que incomodava seu coração, apesar de todas as suas austeridades.]

Pandu disse:

– Ó mais afortunados sábios, autoridades dizem que não há caminho para o céu para um homem sem filhos. Eu confesso a vocês todos que não ter filhos causa-me grande angústia. Acorrentado com quatro tipos de débitos, os homens nascem neste mundo por terem dívidas a pagar aos antepassados, aos deuses, aos sábios, e a outros homens – débitos de centenas e milhares.

Conhecedores da lei têm estabelecido que um ser humano que não reconhecer esses débitos no momento apropriado não alcançará os planetas elevados. Alguém satisfaz aos deuses pelo sacrifício, aos sábios, pelo estudo e penitência, aos antepassados, pelos filhos e ritos de shraddha, e à humanidade, pela bondade.

Pela lei, eu estou livre de meus débitos aos sábios, deuses e humanidade, mas ainda devo aos antepassados, e por isso sinto dor, ó ascetas ricos em austeridades. Se um homem não deixa descendentes, quando seu corpo perece seus antepassados também perecem. Isso é um fato.

Portanto é para ter progênie que nobres homens nascem neste mundo. Queridos sábios, mesmo eu fui gerado na viúva de meu pai por uma grande alma. Por um arranjo similar, não poderia haver prole de minhas esposas?

Os ascetas disseram:

– Ó virtuoso rei, você certamente terá bonitos filhos e crianças sem pecados, como deuses. Nós sabemos disso por divina visão. Ó tigre entre os homens, por seus atos você tem de cumprir o que é ordenado pela providência. Um homem inteligente, indesviável, desfruta de um fim feliz. Querido filho, desde que a meta esteja já à vista, você tem de simplesmente empenhar-se, e por obter filhos tão qualificados você conseguirá felicidade.

Vaishampayana disse:
Ouvindo essas palavras dos sábios ascetas, Pandu absorveu-se em pensamentos, sabendo bem que por causa da maldição do brahmana-cervo ele não poderia gerar um filho. [Os sábios tinham-se ido, mas Pandu fixou as palavras deles em sua mente.] Ele então falou com sua fiel esposa Kunti em um local reservado da floresta, aconselhando aquela célebre mulher a aceitar o correto e necessário significado de gerar filhos em tempos de dificuldade:

– Minha querida Kunti, gerar filhos bons é o grande fundamento da sociedade, e assim é apreciado nos livros de leis sagrados. Autoridades sensatas têm, portanto, reconhecido que criar bons filhos é sanatana-dharma, um dever perpétuo dos seres humanos civilizados. A realização de sacrifício, caridade e austeridade, a cuidadosa observação de princípios reguladores – é dito que mesmo tudo isso não será suficiente para santificar a vida de um homem sem filhos.Sabendo bem disso, eu vejo claramente que, como um homem sem filhos, eu mesmo não alcançarei os mundos abençoados. Esta é minha constante preocupação, ó mulher de doce sorriso. Ó tímida pessoa, devido à minha imaturidade, eu estava na direção cruel do brahmana-cervo, e como eu arruinei seu ato de procriação, então meu poder de conceber uma criança foi arruinado por sua maldição.

Boa mulher, eu junto minhas mãos de unhas vermelhas como pétalas de lótus e as coloco em minha cabeça em súplica, eu rogo sua misericórdia. Ó amada senhora de cabelos cacheados, por minha ordem [e como autorizado pelas escrituras sagradas] aproxime-se de um brahmana que seja maior que eu em seus votos de austeridade e gere filhos dotados de muito boas qualidades. Com sua ajuda, mulher tolerante, com certeza irei para a terra abençoada reservada para os pais de bons filhos.

Determinada a ajudar seu esposo e a satisfazê-lo, aquela amável mulher de coxas delgadas então respondeu para o seu Pandu, que conquistou as cidades de todos os reis ímpios:– Enquanto
vivia como uma menina jovem na casa de meu pai, eu era encarregada de servir os respeitáveis convidados que chegavam ao nosso reino. Uma vez eu recebi o severo brahmana Durvasa, que era tão estrito em seus votos. Durvasa sustenta poder assustador e é extremamente perigoso quando insatisfeito. Além do mais, é muito difícil entender o que o agradará ou desagradará. Fiz todo o esforço possível para servi-lo bem, e ao final o vidente estrito ficou satisfeito. Ele deu-me uma bênção e revelou-me uma série de mantras investidos de poderes místicos. Ele disse-me assim;

– Quem quer que seja o semideus que você se interesse em invocar com este mantra, ele certamente virá sobe seu controle, querendo ou não querendo.

– Ó Bharata – continuou ela –, aquele brahmana falou assim, quando eu ainda estava em casa de meu pai. Suas palavras são verdade, e a hora chegou. Ó poderoso rei santo, com sua permissão, invocarei um deus com esse mantra e então podemos ter um filho. Você sabe melhor o que é certo e verdade. Diga-me, que deus invocarei? Saiba que apenas espero sua permissão, pois estou determinada a cumprir esta missão.

Pandu disse:

– Hoje mesmo, ó mulher monumental, você tem de agir, e pela lei! Traga até você o deus Dharma, boa senhora, pois entre os deuses ele é devotado à virtude. Dharma jamais se uniria a nós neste empenho se for injusto ou mal. Ó senhora monumental, então o mundo concluirá: “Este ato foi legítimo”. Sem dúvida, nosso filho será a grande imagem e justiça dos Kurus. Quando ele nos for dado por Dharma, o deus da justiça, sua mente nunca se deleitará em adharma, injustiça. Portanto, fazendo dharma, virtude, nossa primeira prioridade, você tem de se concentrar, pessoa de doce sorriso. Com reverência e o mantra místico, esforce-se pelas bênçãos de Dharma.

Vaishampayana disse:
Enquanto Kunti era assim orientada por seu esposo, a excelente mulher respondia:
– Assim será!
Ela ofereceu-lhe suas sinceras reverências e, com sua permissão, o circumambulou.

publicado por Lalanesha Dasa às 00:09

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MAHABHARATA ( parte 6)

O Nascimento dos Pandavas

Rei Pandu, o imperador do mundo, matou um sábio e sua esposa, que estavam disfarçados como veados justo enquanto eles estavam quase se acasalando. Antes de morrer, o sábio amaldiçoou o rei a morrer se tentasse conceber uma criança. Enquanto o Mahabharata continua, o sábio Vaishampayana relata a lamentação de Pandu e o extraordinário nascimento de seus filhos.

Vaishampayana disse:

Vendo o jovem sábio falecer, o rei ficou desesperado. Angustiado com a morte acidental do santo brahmana, ele e suas esposas lamentaram como se por um parente deles.

Pandu disse:
– Pesosas como eu a quem falta avanço espiritual, ainda que nascido em famílias nobres, vêm a ser desgraçados por seus próprios atos tolos. Tais pessoas estão presas na rede dos seus desejos egoístas.

Tenho ouvido que meu pai Vicitravirya, embora nascido de pais religiosos, veio a absorver-se em prazeres sexuais e, por excesso de apego, aquele jovem rei morreu sem filhos. Entretanto, o autodisciplinado e divino sábio Dvaipayana gerou-me na mulher de meu pai. [Que abençoado nascimento foi o meu!] E ainda hoje minha mente degradada tornou-se absorta em paixão maligna, e perdi-me tolamente em caçada. Sou tão perverso que mesmo os deuses abandonaram-me! [Conquistei a Terra com força militar, mas porque não conquistei meus próprios desejos materiais, quedei-me em escravidão.] Estou determinado a me esforçar por salvação, pois escravidão para este mundo é nada mais que grande calamidade. Agora seguirei o imperecível passado de meu pai Dvaipayana. Não tenho dúvida. Praticarei a mais severa austeridade e errarei pelo mundo sozinho como um mendicante solícito, ficando cada dia debaixo da sombra de uma árvore simples. Raparei minha cabeça e cobrirei meu corpo com poeira. Viverei em casas abandonadas ou simplesmente embaixo de uma árvore, e nada agradar-me-á ou desagradar-me-á.

Não me lamentarei ou rejubilarei por nenhuma coisa material. Se as pessoas
escarnecerem-me ou louvarem-me, eu aceitarei ambos escárnio e louvor igualmente. Não ambicionarei nada neste mundo mortal ou adularei nenhum homem por seu favor. Calor e frio, alegria e dor, vitória e derrota – não vacilarei diante dessas dualidades mundanas, nem reivindicarei nada para ser meu. Não serei carrancudo, nem zombarei de nenhuma criatura. Estarei sempre de semblante alegre e dedicar-me-ei ao bem-estar espiritual de todos os seres viventes. Não cometerei violência contra nenhuma vida, móvel ou imóvel, pois sempre verei todas as criaturas de Deus como meus próprios parentes amados. Tratarei todas as coisas viventes com igualdade.

Vaishampayana disse:

Falando assim, Rei Pandu, profundamente entristecido, respirou pesado por um longo tempo. Encontrando com cuidado os olhos de suas amadas Kunti e Madri, ele disse-lhes:– Todos precisam ser comunicados das mudanças em minha vida. Muitas pessoas dependem de mim, portanto, tão gentil quanto for possível, vocês precisam informar minha mãe, o sábio Vidura e o Rei Dhrtarastra e todos os outros parentes. Falem com os nobres Satyavati e Bhisma, todos os sacerdotes da família real, e os brahmanas, aquelas grandes almas tão estritas em seus votos que beberam o néctar dos deuses. Contem aos anciãos e aos mais velhos cidadãos que nos têm servido com fervor em todas as suas vidas. Contem a eles todos que Pandu se foi, se foi sozinho para a floresta.

Ouvindo sua decisão de viver na floresta como um asceta, as mulheres responderam com igual determinação:– Há outros
estágios de vida para pessoas casadas nos quais você pode realizar austeridades pesadas junto conosco, suas legítimas esposas. Sem dúvida você será bem sucedido e chegará à residência celestial. Ambas estamos prontas para fixar nossas mentes e sentidos em vida espiritual, pois estamos determinadas a seguir você nesta vida e na próxima. Decidimos renunciar o desejo material e prazer, e suportaremos sérias austeridades. Ó mais erudito, ó senhor da Terra, se você nos rejeitar, de imediato abandonaremosnossas vidas. Não há dúvida sobre isto.

Pandu disse:
– Se isso é o que ambas vocês decidiram, então podem vir junto, desde que seus propósitos estejam de acordo com princípios religiosos. Mas eu as previno, cumprirei meus votos estritamente, seguindo meu pai Dvaipayana Vyasa. Renunciarei verdadeiramente todo conforto doméstico, concentrar-me-ei e realizarei severas austeridades. Vagarei na floresta profunda, vestido em casca de árvore, nutrido com frutas silvestres, nozes e raízes. Sentar-me-ei ao fogo, não somente no inverno glacial, mas no verão abrasador.

Banhar-me-ei no rio não somente no verão, mas no inverno também. Usarei farrapos e peles e longos cabelos emaranhados, e meu corpo ficará magro por causa de minha dieta pobre. Terei de tolerar frio, vento e calor. Fome, sede e fadiga serão meus constantes companheiros. Por meio de todas essas difíceis austeridades, eu tenho de conquistar e secar os sentidos antes que eles conquistem-me. Se meus sentidos me superarem, eu imediatamente morrerei, e não será uma morte gloriosa.

Em todos os meus pensamentos e atos, o progresso espiritual será minha única meta. Com os frutos do deserto, maduros ou não, e com minhas palavras e pensamentos e tudo aquilo que eu coletar, adorarei meus veneráveis antepassados e a Suprema Personalidade de Deus, a quem eles adoraram, e reverenciarei os servos autorizados do Senhor que administram este mundo temporário.

Como eu ando pelo deserto, nunca farei nada para prejudicar ou desagradar os anciãos que se retiraram para a floresta para liberação espiritual. Também não perturbarei meus camponeses nem um dos simples moradores de vila. Seguirei estritamente os mandamentos das escrituras para vida renunciada na floresta. De fato, desejo seguir o mais severo desses mandamentos, até que este corpo estiver acabado e eu descansar em paz.

Vaishampayana disse:

Tendo então falado a Kunti e Madri, o grande monarca Kuru tirou suas jóias, coroa, medalhão, braceletes e brincos e ofereceu tudo aos santos brahmanas, incluindo seu inestimável guarda-roupa e o guarda-roupa e jóias de suas esposas.

Pandu então falou novamente, desta vez dirigindo-se a seus seguidores e criados pessoais:

– Vão para Hastinapura – ele disse, triste – e façam saber que Pandu, junto com suas fervorosas esposas, partiu para a floresta para viver como um mendicante, sem riquezas mundanas ou prazer.

Ouvindo estas palavras despedaçadoras de coração de seu amado senhor, os seguidores de Pandu e criados pessoais fizeram um terrível clamor e soluçaram em angústia. Vertendo lágrimas quentes, eles retornaram de seu monarca a Hastinapura para divulgar sua mensagem final. Enquanto o líder Kuru Dhrtarastra ouvia deles tudo o que acontecera na floresta profunda, não conseguia parar de chorar por seu irmão mais novo.

publicado por Lalanesha Dasa às 00:02

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Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

MAHABHARATA ( parte 5)

O Erro mortal de Pandu

Rei Janamejaya disse:

Ó mestre do conhecimento Védico, você contou como, por arranjo do sábio Vyasadeva, os filhos de Dhrtarastra nasceram de um modo não humano e extraordinário. E eu ouvi você recitar seus nomes de maneira sistemática, Ó brahmana. Agora por favor descreva os filhos de Pandu, que eram grandes almas tão poderosas quanto o rei dos deuses. Como mencionado por você, os deuses encarnaram neste mundo investindo sua própria potência nos filhos de Pandu, portanto eu quero ouvir tudo sobre o nascimento deles, pois suas ações eram sobre-humanas. Ó Vaishampayana, narre isso!

Sri Vaishampayana disse:
Enquanto vivia nos bosques, Rei Pandu uma vez entrou em uma vasta área arborizada que abundava em bestas selvagens e perigosas. Lá ele viu um cervo grande em acasalamento com sua corça, e com cinco flechas mortais, rápidas, de hastes douradas e plumagens bonitas, Pandu perfurou o cervo e sua companheira.

O cervo era de fato o filho de um sábio que tinha crescido poderoso pela prática de severas austeridades. Enquanto aquele asceta jovem e poderoso estava em intercurso sexual com sua esposa, que tinha assumido a forma de uma corça adorável, foi golpeado pelas flechas de Pandu. Desferindo um agudo grito humano, ele caiu ao solo em choque e angústia e, percebendo o que tinha acontecido, clamou ao rei.

O cervo disse:

– Até mesmo os homens mais pecadores cheios de luxúria e raiva, faltando-lhes toda a razão e sanidade, nunca agiriam com tanta crueldade quanto você o fez! Seu julgamento não está acima da lei! É a lei que está sobre você! Sabedoria não combina com propósitos proibidos pela lei e providência. Você nasceu em uma família exemplar, uma família que sempre tem sido dedicada a princípios religiosos. Como você pôde ser assim subjugado pelo desejo e pela cobiça, que sua mente divergisse tanto desses princípios?

Pandu disse:

É função de reis matar os inimigos pessoalmente em batalha, e reis são também autorizados a caçar animais selvagens. Ó cervo, você não me deveria condenar de maneira injusta. Reis são autorizados a matar cervos quando o fazem assim sem disfarce ou artifício. Você sabe que esta é a lei, por que você me condena?

O grande sábio Agastya, enquanto situado em sacrifício, foi à floresta profunda e caçou um cervo que ele então consagrou e ofereceu a todas as deidades apropriadas. Se você deseja culpar alguém por meu ato, então é a falta de Agastya que você está oferecendo em sacrifício a Deus.

O cervo respondeu:

Embora você cite o exemplo de Agastya, os reis por tradição não atiram suas flechas a inimigos que são apanhados em um momento de fraqueza. Há momentos muito específicos nos quais é permitido a alguém matar seus inimigos.

Pandu disse:

Mas os reis matam cervos estejam eles alertas ou não, onde quer que eles os encontrem, usando sua força e suas flechas afiadas. Então, por que você me
condena?

O cervo disse:

Eu não o condeno por minha própria causa, simplesmente porque você estava caçando cervo. Mas você deveria ter esperado enquanto eu procriava em minha esposa amada. Você não tinha que ser tão cruel. Todas as criaturas de Deus desejam procriar, pois procriar vidas é uma bênção para todos. Que homem sábio de verdade mataria um cervo em ato de procriação? Nós queríamos procriar uma criança religiosa. Era a meta de nossa vida, e agora você arruinou tudo.

Você nasceu na grande dinastia dos Kuru. Os reis sábios de Kuru nunca causaram sofrimento ou danos a uma pessoa inocente. Então você fez algo que não lhe é apropriado. Você cometeu o mais cruel de todos os atos, algo que o mundo inteiro condena. O que você fez não o conduzirá ao céu, nem espalhará sua fama boa, pois é a mais irreligiosa ação, Ó governante dos Bharatas.

Ó Pandu, você sabe muito bem sobre assuntos com mulheres, e você aprendeu a verdade e o significado da lei de nossas escrituras. Ó Pandu, você que resplandece como um deus, nunca deveria ter cometido um ato tão profano! Na realidade, você é quem se propôs a subjugar os perpetradores de crueldade, os homens pecadores que não se preocupam com vida civilizada, que se esforçam por dinheiro e prazer sem considerar os direitos ou a felicidade dos outros.

O que você fez? Ó melhor dos reis, você abateu-me, um sábio simples que a ninguém ofendeu, que nada pediu dos outros. Eu vivi nesta floresta comendo raízes e frutas silvestres, sempre pacífico e amável a todas as criaturas.

Ouça minhas palavras, Pandu! Porque você nos matou com crueldade, um casal unido no ato de procriar, eu declaro que um dia quando você estiver desprotegido, guiado por desejo, o ato de procriar certamente trará sua vida a um fim!

Eu sou Kindama, um sábio austero sem rival. Sentindo-me envergonhado entre os humanos, eu tomei a forma de um veado e vaguei com os cervos nos bosques profundos, envolvido em assuntos conjugais com minha esposa que tomou a forma de um corça. Você não incorrerá no pecado de matar um brahmana, porque você não percebeu minha identidade. Não obstante, você abateu-me quando eu estava perdido em desejo conjugal.

Seu tolo! Por esse pecado você tem de sofrer. Deveras você sofrerá o mesmíssimo destino, quando se deitar com sua querida, enlevados por desejo, nessa mesma situação você irá para o mundo dos mortos! E a amante com quem você se deitar nesse momento final o seguirá com grande devoção, enquanto você cai nas mãos do senhor da morte, a quem todas as criaturas têm de obedecer.

Ó mais sábio dos homens, como eu fui lançado em angústia, mesmo enquanto experimentava tanta felicidade, também você, numa hora de felicidade, virá a um fim doloroso.

Vaishampayana disse:

Tendo falado assim, o desgraçado asceta perdeu sua vida, e naquele instante Pandu entrou em desespero absoluto.


 

publicado por Lalanesha Dasa às 23:54

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MAHABHARATA ( parte 4)

 

                                      Gandhari dá à luz

                               Sri Vaishampayana disse:

Ó rei, então Dhrtarastra gerou cem filhos em sua esposa, Gandhari, e o seu centésimo primeiro filho nasceu da filha de um comerciante. E Pandu, para expandir sua linhagem real, obteve cinco filhos, todos guerreiros Maharathas, por suas duas esposas, Kunti e Madri. Esses cinco filhos foram todos gerados por deuses pessoalmente.

Rei Janamejaya disse:

Ó melhor dos duas vezes nascidos, como cem filhos nasceram de Gandhari? Quanto tempo levou para os procriar todos, e quem era o primogênito dos meninos? Como uma única criança nasceu para Dhrtarastra da filha de um comerciante? E como Dhrtarastra pôde desconsiderar daquele modo uma esposa como Gandhari, que sempre foi dedicada à felicidade dele e que sempre andou no caminho da retidão?

Como é que Pandu, entretanto amaldiçoado por um sábio santo, obteve dos deuses cinco filhos que foram todos guerreiros Maharathas? Ó asceta, cuja riqueza é austeridade, você sabe as respostas para minhas perguntas. Explique, então, em detalhes esses eventos tais como aconteceram na verdade, pois eu nunca me canso de ouvir sobre meus antepassados.

Sri Vaishampayana disse:
Uma vez o grande sábio Dvaipayana, conhecido como Vyasa, aconteceu de ser aborrecido por fome e fadiga. Gandhari, a esposa pura de Dhrtarastra, o encontrou naquele estado exausto e o satisfez por completo com seu serviço dedicado. Vyasa ofereceu-lhe então uma graça, e ela escolheu ter cem filhos com o mesmo caráter do marido. Vyasa a abençoou como ela desejava, e em tempo ela ficou grávida de seu marido, Dhrtarastra.

Gandhari carregou sua gravidez durante dois anos completos, e ainda estava sem filhos. Gradativamente, o pesar tomou conta de sua mente. Ouvindo que a cunhada Kunti tinha dado à luz um filho que era como um pequeno deus Sol, e não vendo nenhum progresso na sua própria gravidez, Gandhari pensou com desespero no que fazer. Incapaz de suportar sua frustração, ela golpeou seu útero repetidamente com grande esforço, causando a queda do embrião.

Um pedaço duro de carne, como uma bola vermelha de ferro, caiu de seu útero. Depois de dois anos de sofrimento, este era o resultado. Dor e raiva cresceram em seu peito, e sem dizer qualquer coisa a seu marido, Gandhari estava a ponto de jogar fora o pedaço de carne.

O grande sábio Vyasa tinha abençoado Gandhari para ter cem filhos. Agora por sua visão poderosa, ele entendeu que Gandhari estava a ponto de destruir seu embrião, e portanto aquele sábio eloqüente veio até ela depressa e viu a massa carnosa. Ele então disse-lhe:

–Ó filha de Subala, o que você está planejando fazer?

Gandhari revelou seu plano de verdade ao grande sábio.–Quando eu ouvi – ela disse – que Kunti foi a primeira a ter um filho e que a criança dela era tão bonita quanto o deus Sol, não pude suportar a frustração e golpeei o embrião de meu útero. Meu senhor, uma vez você me abençoou ter cem crianças. Mas agora, no lugar de meus cem filhos, nasceu este mero pedaço de carne.

Vyasadeva disse:

Querida filha de Subala, é assim mesmo, e não pode ser de outro modo, pois minhas palavras nunca provaram falsidade, até mesmo quando falaram em gracejo. Com certeza tudo que eu prometi a você tem de se tornar realidade. Depressa, prepare cem tigelas e as encha de manteiga clarificada. Então nós borrifaremos água fria em cima desta bola de carne e a manteremos, junto com as tigelas, em um lugar cuidadosamente guardado.

Sri Vaishampayana disse:

Quando a bola carnosa foi borrifada com água fria, dividiu-se em cento e um pequenos embriões, cada um do tamanho do dedo polegar. Vyasadeva então colocou esses embriões nas tigelas cheias de manteiga clarificada e providenciou para que as tigelas fossem guardadas com cuidado. Vyasa instruiu Gandhari que os potes deveriam ser abertos somente depois de um certo espaço de tempo decorrido. Cumprido assim o arranjo, a grande alma Vyasadeva voltou às montanhas poderosas do Himalaya para continuar
suas austeridades.

Gandhari com cuidado seguiu as instruções do grande sábio e afinal sua primeira criança, conhecida como Duryodhana, nasceu. Embora Duryodhana fosse o primeiro filho nascido para Gandhari e Dhrtarastra, o filho Yudhisthira de Pandu era claramente seu superior, sendo por nascença o príncipe Kuru primogênito.

Na verdade, no momento em que seu filho nasceu, Dhrtarastra chamou por muitos brahmanas eruditos, junto com Bhisma e Vidura, e disse-lhes:

Deixem-me primeiro reconhecer que entre os príncipes de Kuru, Yudhisthira, o filho de Pandu, é o primogênito, e eu estou certo de que ele trará nada mais que fortuna para nossa família. Por suas próprias qualidades excelentes, ele ganhou o direito de reger nosso reino, e nós não podemos falar sequer uma palavra contra ele. Mas meu filho Duryodhana, que nasceu imediatamente depois de Yudhisthira, também tornar-se-á um rei merecedor? Todos vocês, contem-me com verdade e precisão qual é o futuro para meu filho.

Tão logo havia Dhrtarastra terminado de falar, quando maus presságios apareceram em todas as direções. Chacais e outras bestas carniceiras começaram a uivar, e observando tais sinais temerosos em todos lugares, os brahmanas, junto com o sábio Vidura, disseram a Dhrtarastra:

– Ó rei, está manifesto pelos sinais que este seu filho destruirá a dinastia inteira! Se você quiser alguma paz para sua família, nós aconselhamos que você rejeite esta criança. Se você o elevar como seu filho, cometerá um engano lastimoso. Ó rei, esteja satisfeito com noventa e nove filhos. Sacrifique um para salvar o mundo e proteger sua própria família. Um parente pode ser rejeitado para se salvar a família, e uma família pode ser abandonada para se salvar uma aldeia. Uma única aldeia pode ser sacrificada para se salvar o Estado, e o mundo inteiro poderia ser renunciado para se salvar a alma de uma pessoa.

Mesmo quando assim orientado por Vidura e todos o brahmanas eruditos, Dhrtarastra estava impossibilitado de seguir o conselho deles, desnorteado como estava pelo afeto por seu filho infantil. E no mês seguinte, nasceram todos os cem filhos de Dhrtarastra, como também uma única filha, a sua centésima primeira criança.

Durante o tempo em que Gandhari tinha estado sofrendo e incapacitada com o fardo de sua gravidez grande e prolongada, a filha de um comerciante tinha cuidado do poderoso Dhrtarastra que era cego e sempre precisou de uma enfermeira. Depois de servir o rei durante um ano, a mulher deu à luz uma criança dele, o famoso e sábio Yuyutsu, também
chamado Karana por causa de seu nascimento misto de pai real e mãe de uma
família vaishya, ou comerciante.

Assim o erudito Dhrtarastra procriou cem guerreiros na linha real juntamente com uma única filha adorável chamada Du_shala (além de um filho procriado em uma virgem vaishya). Cada um desses cem filhos tornar-se-ia mestre de carruagem de guerra, capaz de lutar sozinho com milhares de guerreiros inimigos.

Janamejaya disse:

Você nos contou como pela misericórdia do santo Vyasa, Dhrtarastra teve cem filhos. Também mencionou que Dhrtarastra procriou um filho chamado Yuyutsu com uma enfermeira nascida da comunidade comerciante. Mas você não explicou sobre a filha de Dhrtarastra.

É bem sabido, Ó pessoa sem pecado, que Gandhari foi abençoada por Vyasadeva, o vidente de poder imensurável, a ter cem filhos. Agora, meu senhor, por favor descreva como aquela única filha nasceu. Se o santo Vyasa dividiu o pedaço de carne em cem partes, e Gandhari não teve nenhuma outra criança depois disso, como sua filha Duhshala nasceu? Por favor conte-me o que aconteceu. Ó sábio erudito, eu estou extremamente curioso para ouvir falar disso.

Vaishampayana disse:

Querido descendente de Pandu, você levantou uma ótima questão, e eu responder-lhe-ei.O grande asceta Vyasa tinha borrifado água fria no pedaço de carne, dividindo-o então em partes viventes diferentes. Enquanto cada embrião novo aparecia, a enfermeira de Gandhari os colocava um por um em tigelas cheias de manteiga clarificada. Enquanto isso prosseguia, Gandhari piedosa, sempre firme em seus votos religiosos, começou a meditar em como poderia ser ter uma filha. Aquela mulher adorável tinha sido abençoada para ter cem filhos, mas agora em sua mente ela sentia o afeto natural de uma mãe por uma filha. Quanto mais ela pensava nisso, mais cultivava seu desejo.

– Sem dúvida – ela pensou – o sábio santo cumprirá sua promessa, e eu terei cem filhos, mas se eu pudesse
apenas ter uma filha, eu sentiria a maior satisfação. Apenas uma filhinha, mais jovem que todos os seus cem irmãos, seria tão agradável. Então meu marido poderia desfrutar das recompensas piedosas dadas àqueles cujas filhas procriam bons filhos.
- Mulheres nutrem um amor
especial por um genro. Eu fui abençoada com cem filhos, mas se eu ainda tivesse uma filha (que eu casaria com um genro bom), então, cercada por meus filhos e pelos filhos de minha filha, eu com certeza cumpriria todos meus deveres em vida.
[A mente de Gandhari era
fixa no seu desejo de ter uma filha, e ela ofereceu esta oração a
Deus:]
– Se eu tenho sido fiel em
vida, se eu tenho executado austeridades, feito caridade, ou acendido o fogo de sacrifício, se alguma vez eu tiver agradado meus superiores respeitáveis, então possa eu, por favor, ter uma filha.
Enquanto Gandhari estava
rezando daquele modo, o sábio ilustre Dvaipayana Vyasa terminava de dividir a
bola de carne, contando os pedaços para ter certeza se havia cem. Ele então
orientou Gandhari, a filha do Rei Subala:
– Querida senhora – disse –,
há cem filhos aqui, portanto eu não lhe fiz uma promessa falsa. Mas de alguma maneira, por arranjo da providência há uma parte extra, além dos cem, e se tornará a filha que tanto você deseja, Ó mulher afortunada.

Vaishampayana disse:

O grandioso asceta Vyasa então tinha um pote a mais cheio de manteiga clarificada trazido àquele lugar, e ele colocou dentro o embrião que era a filha de Gandhari. E assim, querido rei de Bharata, eu expliquei agora a você como Gandhari deu à luz uma única filha chamada Duhshala. Agora fale-me, rei sem pecado, o que mais eu narrarei a você?

publicado por Lalanesha Dasa às 23:51

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MAHABHARATA ( parte 3)


 

 

                                  A Conquista de Pandu

O sábio Pandu era um tigre entre os homens. Em toda a Terra, todos os homens que o viam ficavam pasmos, porque ele tinha o tórax de um leão, ombros como os de um elefante poderoso e grande, olhos bonitos tão destemidos quanto os de um touro bravo. Satisfeito com os seus matrimônios, dotado de força extraordinária e ousada, Pandu agora desejava conquistar o mundo, e arremeteu-se contra os muitos inimigos da Casa de Kuru.

Pandu marchou primeiro sobre os perversos Dasarnas e os derrotou em batalha. Pandu lutou como um leão, porque ele sabia que a honra da dinastia dos Kuru pairava sobre ele. O exército de Kuru era uma visão colorida com seus muitos estandartes luminosos chicoteando no vento.

Pandu a seguir dirigiu essa força poderosa de elefantes, cavalos, carruagens e infantaria para o reino de Magadha. Rei Darva de Magadha era o inimigo declarado dos reis de todo o mundo, a quem ele hostilizava com crueldade de muitas maneiras, mas Pandu o subjugou com coragem em seu palácio real. (O reino de Magadha tinha crescido rico e poderoso por sua agressividade constante). Pandu confiscava agora a tesouraria inflada, como também muitos bons animais e soldados.

Depois Pandu foi para Mithila e derrotou o exército de Videha em batalha, e então em combate direto com os guerreiros de Kasi, Suhma e Pundra, Pandu estabeleceu a glória dos Kurus pela força assustadora dos seus próprios dois braços. O jovem Pandu, com suas salvas de setas ardentes e seus tiros de lanças flamejantes, era como fogo abrasador, e quando os reis dos homens aproximavam-se daquele fogo eles eram queimados até as cinzas. Os reis com seus exércitos foram devastados por Pandu e o exército dele, trazidos sobseu governo e integrados na estrutura de imposto central.

Quando Pandu conquistou todos os reis do mundo, os próprios governantes concordaram com unanimidade que Pandu sozinho era um grande herói, somente igual a Indra, que obscurece todos os outros governantes cósmicos. Assim todos os líderes desta Terra abundante vieram diante de Pandu com suas mãos postas em respeito, trazendo como tributo ao líder do mundo variedades de jóias, pérolas preciosas, coral, ouro e prata, e uma riqueza de vacas, touros, cavalos, carruagens e elefantes.

Os reis também entregaram asnos, camelos, búfalos, cabras e ovelhas. O grande governante de Hastinapura aceitou graciosamente todos essas oferendas e partiu de novo com seus vigorosos cavalos na direção das terras de seu reino, voltando afinal a sua capital, Hastinapura.

As pessoas exclamaram:

“Santanu era um leão entre reis, e o lendário Bharata era saturado em sabedoria, mas seus gritos gloriosos de vitória tinha perecido, porém agora Pandu ergueu de novo aquele som célebre. Aqueles que roubaram as terras e tesouros reais dos Kurus são agora sujeitos obedientes que pagam imposto ao seu senhor, o leão de Hastinapura ".

Antes que tivessem ido muito distante, os cidadãos de Hastinapura ficaram estremecidos ao ver que a terra estava repleta de muitos tipos de pessoas que tinham vindo com Pandu vitorioso. Bhisma e os outros Kurus não podiam ver fim para a riqueza fabulosa carregada pelo exército vitorioso. Vários veículos eram empregados simplesmente para transportar as jóias e pedras preciosas. Parecia haver rebanhos ilimitados de elefantes, cavalos, touros e vacas, havia camelos e ovelhas inumeráveis e carruagens e vagões incontáveis.

Quando Pandu captou a visão de Bhisma, que era como seu pai, ele avançou de imediato e ofereceu respeito aos seus pés. Então Pandu concedeu grande alegria a sua mãe e homenageou apropriadamente até mesmo os cidadãos simples da cidade e do país.

Pandu tinha trazido o mundo inteiro de volta à ordem e esmagado reinos cruéis e maus. Sua missão estava cumprida, ele agora tinha vindo para casa. Aproximando-se de seu filho amado, o poderoso Bhisma derramou lágrimas de alegria.

Aos sons emocionantes de centenas de instrumentos musicais tocados juntos, e com o estrondear profundo de tambores de caldeira, Rei Pandu, elevando os corações dos cidadãos, entrou na cidade real de Hastinapura.

Vaisampayana disse:

Com suas próprias mãos Pandu tinha conquistado grandes riquezas, mas ele não as mantinha para si. Depois de consultar seu irmão mais velho, Dhrtarastra, Pandu ofereceu a riqueza a Bhisma, a Satyavati, a sua própria mãe, Ambalika, e dispôs-se de riquezas para seu irmão sábio Vidura.

Pandu era generoso por natureza, e ele satisfez por completo seus amigos bem-querentes com presentes opulentos. Naquela atmosfera festiva, Bhisma agradou também Satyavati presenteando-a com um dote de pedras preciosas bonitas conquistadas por Pandu. Com grande afeto Ambalika abraçou filho Pandu poderoso, o melhor dos homens, da mesma maneira que Paulomi abraça Jayanta.

Com a riqueza vasta acumulada por Pandu, Dhrtarastra executou os cinco grandes sacrifícios que são significativos para satisfazer o Senhor Supremo em última instância. Nesses eventos poderosos, que eram iguais a cem sacrifícios de cavalo, centenas e milhares de presentes preciosos foram oferecidos aos professores da humanidade e para outros cidadãos respeitáveis.

Embora Pandu tivesse de verdade conquistado o mundo, ele era não obstante desinteressado em uma vida de lazer e opulência real. Levando suas esposas, Kunti e Madri, ele deixou sua residência palaciana, com suas camas e sofás magníficos, e foi para a floresta. Pandu sempre gostou de vagar pelas florestas e bosques bonitos, e ele despenderia muito de seu tempo longe da cidade ocupado em caçar.

Rei Pandu desfrutava em especial dos agradáveis sopés e vales no sul da cordilheira dos Himalayas, e lá estabeleceu habitação numa floresta de árvores Sala gigantes. Acompanhado de sua esposas encantadoras, Kunti e Madri, Pandu distinguia-se naquela floresta situando-se como o nobre elefante de Indra no meio de duas fêmeas .

Pandu era grande e bonito e mestre de armas preparado. Quando os habitantes simples da floresta viram o rei de Bharata heróico com suas duas esposas, empunhando suas flechas, espada e arco, e vestido em sua fabulosa armadura, eles o consideraram ser um deus na Terra. Encorajados por Dhrtarastra, os moradores de floresta sempre trouxeram a Pandu o que quer que ele precisasse ou desejasse, levando de imediato até ele mesmo nos confins distantes da floresta.

Enquanto isso na capital de Hastinapura dos Kuru, Bhisma ouviu que o Rei Devaka tinha uma filha jovem e bonita chamada Parasavi, que era candidata a matrimônio para uma família real. Depois de estudar o assunto, Bhisma decidiu que ela era uma noiva mais desejável para um príncipe Kuru, e assim ele providenciou para a trazer à capital Kuru, onde ele a casou com o grande e notável Vidura. Na verdade, o nascimento dela foi semelhante ao de Vidura. Vidura era admirado em especial pela realeza de Kuru, por sua sabedoria e generosidade, e com sua esposa fiel ele procriou filhos bons que compartilharam de todas as qualidades sublimes do pai.

publicado por Lalanesha Dasa às 23:49

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MAHABHARATA ( parte 2)

 

O Casamento de Kunti

Vaisampayana continuou:

A filha de Kuntibhoja poderia fazer grandes votos e os cumprir fielmente, porque ela deleitava-se em seguir as leis de Deus. Possuía uma bondade natural, e sua beleza estava além de comparação. Prtha era dotada de uma graça feminina extraordinária, mas embora ela estivesse no desabrochar de sua mocidade radiante, nenhum príncipe apropriado havia ousado vir lhe pedir a mão em matrimônio.

Prtha, também conhecida como Kunti, ficava pensativa sobre o seu futuro. Por intermédio de seu pai, ela convocou todos os melhores reis e príncipes, fazendo anunciar que seu pai, o rei, lhe ofereceria uma cerimônia de svayam-vara. Então quando o dia chegou, e no meio da arena, aquela jovem senhora pensativa contemplou o tigre entre todos os reis, Pandu, o grande filho do clã de Bharata.

Fora os milhares de monarcas que ansiosamente a cortejavam, Kunti selecionou o jovem e poderoso Pandu, o príncipe amado de Kuru que tinha o tórax de um leão, ombros como os de um elefante macho, e olhos grandes e bonitos tão destemidos quanto os de um touro bravo. Como o Sol ofusca o esplendor das estrelas inumeráveis, assim Pandu ofuscou o esplendor de todos os outros reis da Terra, simplesmente levantando-se na arena festiva. Naquela assembléia real ele parecia um novo Indra.

A filha de Kuntibhoja era de uma beleza radiante, e seu corpo jovem era uma criação sem defeito. Quando afinal ela viu Pandu, o melhor entre os homens, na assembléia real, houve um forte tremor em seu coração, seu corpo inteiro ficou cheio de desejo romântico, e sua mente fixa ficou perturbada. Kunti pegou o adorno cerimonial, timidamente aproximou-se do rei de Kuru, e o colocou sobre os ombros dele, assim aceitando-o como seu esposo amado.

Quando todos os reis reunidos ouviram que Kunti havia escolhido Pandu, eles deixaram aquele lugar como tinham vindo, em elefantes, cavalos e carruagens. O pai de Kunti então realizou uma cerimônia de casamento opulenta merecedora da filha de um rei. (Freqüentemente em uma cerimônia de svayamvara, os outros reis desafiariam o noivo escolhido para testar sua força, mas sequer um único guerreiro ousou um passo adiante contra o jovem Pandu).

Pandu aceitou a mão de Kunti com graça e encantamento, e todos concordaram que ele era uma vida abençoada e que ninguém podia estimar a fortuna e felicidade de um homem que tinha ganho tal esposa qualificada. Pandu uniu-se com a filha de Kuntibhoja em matrimônio sagrado, da mesma maneira que Indra poderoso tinha-se unido com a deusa Paulomi.

Rei Kuntibhoja, o senhor da Terra, casou sua filha Kunti com Pandu, e então ele homenageou seu genro com todos os tipos de presentes valiosos, e enviou de volta Pandu e sua nova esposa para a cidade do Kurus. Com preocupação paternal para com o casal real, ele também organizou uma escolta militar poderosa, adornada de maneira colorida com variedades de bandeiras oficiais e ornamentos.Quando Pandu chegou à sua própria cidade, ele foi recepcionado com igual festividade. Grandes
ábios e brahmanas qualificados o escoltaram à capital majestosa, e o tempo todo o abençoavam e louvavam com hinos bonitos. Depois de completar formalidades breves, Rei Pandu providenciou para que sua esposa Kunti fosse instalada com conforto em sua casa nova.

Depois disso ele viajou com Devavrata Bhisma à capital de Madra, por Madri, a filha do governante de Madra, reconhecida ao longo dos três mundos como uma mulher de beleza incomparável. Ela foi adquirida por parte de Pandu, com o pagamento de um grande tesouro. Bhima então organizou seu matrimônio com Pandu, aquela grande alma.

publicado por Lalanesha Dasa às 23:47

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MAHABHARATA ( parte 1)

                                                               A História da Grande 

Índia

 

 

   As histórias védicas nos contam sobre a civilização da Índia - ou
Bharatavarsa, como era chamada - uma vez estendida ao longo do

mundo.

   O Mahabharata é a maior história da Índia. É um poema épico

de mais de cem mil versos, composto em Sânscrito pelo sábio Vyasa.


  

O Mahabharata está cheio de incidentes dramáticos e instrutivos que alcançam seu ponto alto filosófico no Bhagavad-gita. Pelas páginas do Mahabharata nós podemos ganhar um entendimento mais profundo do conhecimento, do valor e da cultura do modo de vida védico.  
Com freqüência o tradutor considera o Mahabharata como um trabalho literário fascinante, um objeto sobre o qual especular, mas não como o que os seguidores da cultura védica aceitam ser: um trabalho de verdade, uma porta para o caminho da compreensão definitiva. Até então, as edições do Mahabharata disponíveis ou têm sido abreviadas de maneira drástica ou de difícil penetração.
Mas agora uma tradução nova foi empreendida por Hridayananda Dasa Goswami, discípulo directo de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Esta tradução nova nos traz um texto que é erudito,devocional e eminentemente legível. A tradução do Adi Parva - o primeiro " livro " do Mahabharata - está agora completa e sendo lida para impressão, enquanto Hridayananda Dasa Goswami prossegue com o próximo livro.Na Índia, por gerações, pessoas em cidades e aldeias juntam-se à noite para ouvir leituras de histórias védicas como o Mahabharata. Agora, a cada edição nós poderemos apreciar e aprender o épico histórico desta preciosa fonte de cultura védica, que é a fonte de toda a sabedoria.


 


O Nascimento de Karna

 

Sri Vaishampayana disse:

Rei Sura, o líder da dinastia de Yadu, era o pai de Vasudeva (que se tornou o pai de Senhor Krsna depois). A filha de Sura era chamada Prtha, e nenhuma mulher na Terra teve beleza como a sua.

A irmã do pai do Rei Sura teve um filho chamado Kuntibhoja que era impossibilitado de procriar, portanto o poderoso Sura prometeu dar sua primeira criança ao seu primo.

Assim quando Prtha nasceu, Sura declarou, " Esta menina é minha primeira criança", e agindo como um verdadeiro amigo, ele deu o bebê ao amigo Kuntibhoja, uma grande alma que ansiava pelo dádiva de uma criança.

Kuntibhoja era um rei santo, e assim que sua filha começou a crescer, ele a incumbiu da adoração do Senhor Supremo e de respeitosamente servir aos convidados que viessem ao palácio.

Uma vez Prtha foi solicitada a cuidar de um brahmana severo chamado Durvasa, que era rígido em seus votos, mas possuía um temperamento assustador e um senso inescrutável de decoro. Prtha fez todo esforço para agradar o brahamana, e ele ficou satisfeito por completo com o seu serviço.

Antevendo a necessidade de meios legais para ela superar problemas futuros, o sábio deu-lhe um mantra dotado de poder místico e disse- lhe, "Quem quer que seja o deus que você chame com este mantra, ele abençoar-lhe-á com uma criança ".

Quando o brahmana a havia assim instruído, aquela virgem casta de alta reputação ficou cheia de curiosidade. (Ela desejou saber como o mantra funcionava, e quando ficou só decidiu ver por si mesma.) Chamou então o deus Sol e imediatamente viu vindo em sua direção o grande fabricante da luz mantenedora do mundo.

A escultural Prtha contemplou essa maravilha e ficou surpresa, e o Sol resplandecente, que revela todas as coisas visíveis, deu-lhe então uma criança. Prtha deu à luz um filho heróico, destinado a ser o melhor de todos os que suportam armas. Coberta com armadura, aquela criança bonita, de um deus abundante em opulência natural, nasceu pois com uma armadura natural e brincos reluzentes que iluminavam sua face.

Um dia esse filho seria famoso por todo o mundo como Karna.O Sol supremamente esplêndido devolveu então à menina sua virgindade, e tendo feito isto, aquele deus mais generoso voltou ao seu domicílio celestial. Vendo o filho recém-nascido, a princesa de Vrsni sentiu-se miserável e preocupada, e a sua mente podia pensar em somente uma coisa: "O que será feito? O que posso fazer para me tornar virtuosa?"

Kunti estava terrificada para se defrontar com seus parentes e esconder (o que ela sentia ser) sua ação imprópria. Ela enviou sua criança, nascida com armadura extraordinária e brincos, a flutuar sozinha rio abaixo.

Logo em seguida um homem, que era filho respeitável de um condutor de carruagem e marido de Radha, achou a criança abandonada e com sua esposa aceitou o bebê como seu próprio filho. Os dois formaram um nome para a criança: "Esta criança nasceu com riquezas, assim o nome dela será Vasusena ".

Vasusena amadureceu em uma mocidade poderosa e heróica, que superou em todos os tipos de armas, e suportaria adorar o deus Sol até que sua costa estivesse queimando. Ele era leal às suas palavra, e quando entoava suas orações ao Sol, nada havia que aquela grande alma e herói não pudesse dar aos brahmanas.

Uma vez o radiante Indra, que mantém este mundo, assumiu a forma de um brahmana e implorou a Vasusena por sua armadura natural e seus brincos. Embora desencorajado por este pedido, Vasusena cortou sua armadura e seus brincos e os ofereceu com mãos postas em respeito.

Pasmado com este ato, Indra deu-lhe a arma sakti e disse: "Quem quer que você deseje conquistar, seja um deus, um demônio, ou um homem, se um Gandharva, uma serpente celestial, ou um Raksasa horrível - a quem quer que você furiosamente lance esta arma, esta pessoa não irá muito longe. "Antes, seu nome era conhecido como Vasusena, mas agora por esta ação, ficou conhecido como Vaikartana Karna.

publicado por Lalanesha Dasa às 23:44

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.Para melhor compreender este épico histórico, o leitor terá que seguir esta sequência abaixo!!

. MAHABHARATA ( parte 14 )

. MAHABHARATA ( parte13 )

. MAHABHARATA ( parte 12 )

. MAHABHARATA ( parte 11 )

. MAHABHARATA ( parte 10)

. MAHABHARATA ( parte 9)

. MAHABHARATA ( parte 8)

. MAHABHARATA ( parte 7)

. MAHABHARATA ( parte 6)

. MAHABHARATA ( parte 5)

. MAHABHARATA ( parte 4)

. MAHABHARATA ( parte 3)

. MAHABHARATA ( parte 2)

. MAHABHARATA ( parte 1)